Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Santana-Maia Leonardo - in Público de 6/11/10 

 

Sempre votei e apoiei Cavaco Silva. E fi-lo sempre por convicção. E foi precisamente por acreditar na sua promessa de que seria capaz de devolver Portugal ao crescimento e prosperidade, em "cooperação estratégica" com a maioria socialista, que votei nele nas últimas presidenciais.

 

Acontece que Cavaco Silva teve o condão de me fazer perder o pouco respeito que já tinha pela nossa classe política. Pensava eu que se tratava de uma pessoa de convicções, recta e frontal. Não é. Pelo contrário, é mais um dos muitos políticos, que por aí anda, calculista, curvilíneo e consensual.

 

É óbvio que, para haver "cooperação estratégica" com o Governo, seria necessário, antes de mais, que o Governo quisesse cooperar com o Presidente, o que manifestamente não sucedeu. Mas o Presidente não podia deixar de ver aquilo que entrava pelos olhos de qualquer pessoa com "dois dedos de testa": a corrida vertiginosa para o abismo a que as políticas irresponsáveis e criminosas do Governo, nas mais diferentes áreas (educação, justiça, obras públicas, trabalho, família, administração pública, etc.), nos estavam conduzir.

 

Acontece que o Presidente assistiu à derrocada de Portugal, impávido e sereno, sem nunca ter sentido a necessidade e a urgência de fazer uma comunicação ao país com a mesma força e determinação da que fez sobre o Estatuto dos Açores.

 

Na sua comunicação ao País, a propósito da promulgação dos casamentos gay, ficámos todos a perceber a razão deste silêncio cúmplice com a política criminosa do Governo: para o Presidente, a ética das convicções deve ceder à lógica das conveniências, a que eufemisticamente resolveu chamar "ética da responsabilidade".

 

De José Sócrates, não esperava nada. De Cavaco Silva, esperava tudo, menos isto: que preferisse sacrificar Portugal a sacrificar a sua vitória eleitoral.