Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

COLUNA VERTICAL



Sábado, 01.01.11

A LUZ QUE AQUECE E ARREFECE

Inês Silva*

* Doutora em Linguística (Sociolinguística)

e professora adjunta convidada na Escola Superior de Educação de Santarém.

  

Boa notícia… a de que subimos no ranking da OCDE. Boa notícia… a de que as retenções baixaram. Boa notícia… a de que os professores foram os grandes responsáveis por estas boas notícias.


A televisão vai mostrando os políticos a regozijarem-se com a aprendizagem de sucesso dos nossos alunos e com o trabalho de todos os professores. Convém-lhes neste momento tecer alguns elogios a quem é sistematicamente espezinhado e culpado dos males maiores da sociedade das (in)competências.

 

É Natal. Lá fora chove. Cá dentro está quente, tão quente que não apetece ir para a rua. Mas, de repente, a rua veio até mim.  


Pela janela embaciada, vi uma aluna pequenina, tão pequenina que passava despercebida entre a multidão. Vivia na minha cidade, cheia de neve branquinha, com prédios e casas e ruas iluminadas por grandes estrelas de luz. Pelas chaminés saía o fumo das lareiras fartas de lenha e o vapor das panelas bem apetrechadas de bons legumes e nacos de carne. E foi aí que a criança sentiu fome, mas ninguém lhe dava comida. Descalça, encostou-se à montra de uma sapataria. Olhou para os preços – que horror… como os adultos são cruéis e exagerados. Não há criança que lá chegue. E, ainda mais, ela não tinha nada para vender. Outrora, leram-lhe uma história de uma menina igual a si, que andava pelas ruas de outra grande cidade, recheada de neve macia, a vender fósforos. Com fome e com frio, lá ia ela de pessoa em pessoa, de casa em casa, até conseguir que alguém os comprasse. Mas, um dia, a menina, para se aquecer, acendeu-os todos. Depois, morreu e foi ter com Jesus, que vivia numa casa muito quentinha.  


A aluna pobre decidiu, então, procurar luzinhas de Natal para se aquecer. Rua abaixo, rua acima, verificou que estas não existiam. A Câmara não as colocou porque não tinha dinheiro. Só mesmo dentro das casas elas cintilavam, muito recolhidas nas salas e nos quartos de pessoas tão diferentes dela. Então resolveu bater à porta de uma casa apalaçada. Com certeza lhe dariam uma luz.   


Truz, truz.
 

Veio uma empregada que lhe perguntou o que queria. 


- Quero uma luz. Uma luzinha pequenina que me aqueça. 


- A luz vem da inteligência que herdaste da tua família. Vai, vai para casa.  


A criança lá seguiu, esfomeada, e virou para outra avenida larga, muito iluminada, com casas de grande beleza e conforto. Os jardins branquinhos tinham bonecos de neve e arbustos forrados de chantilly.  


Subitamente, viu uma criança à janela de uma dessas mansões. Decidiu-se e lá foi.  


Truz, truz. 


Um rapaz de dez anos veio abrir-lhe a porta.

 
- Sim?  


- Olá. Dás-me uma luz da tua casa para me aquecer? 


- Oh, quem oferece luzes é o governo. Procura-o, porque ele dá muitas a meninos pobres. 


A criança, já enregelada, pensou que não podia perder mais tempo e foi procurar a casa do governo. Caminhou, caminhou, até que encontrou um edifício muito grande, de pedra tão fria que nem a neve ficava colada às paredes. Viu uma placa que dizia acesso reservado aos membros do governo. 


- É aqui. 


E lá foi. Subiu uma escadaria imensa, até que se lhe afigurou uma porta muito alta, robusta, trancada a sete chaves. Com a sua mãozinha roxa, bateu. 


Truz, truz. E mais três vezes: truz, truz, truz. 


A ausência de calor humano era total. Percebeu que o governo estava fora, percebeu que também dali não levaria nenhuma luzinha para se aquecer, e percebeu, finalmente, que o governo a tinha abandonado, a ela, criança pobre.  


Talvez estivesse a tratar das famílias, daquelas que depois de muito bem cuidadas podiam dar inteligência às suas crianças, para estas poderem chegar sem ajuda à luz que aquece os corações.  


Resolveu, então, voltar às casas que estavam em baixo mas escorregou na escadaria, vindo a bater com o seu frágil corpo em todos aqueles degraus. Tombou na neve macia e aí ficou. Foi ter com Jesus, para a sua casa quentinha. 


Descobriu-se mais tarde que, afinal, esta pequena aluna não constava do ranking da OCDE nem do número dos chumbos. Esqueceram-se dela. Talvez porque o seu problema tivesse a ver com fome e com frio… problema menor face aos resultados escolares, que brilham mais quando são bons.


Mas se, no próximo ano, em vez de uma andarem mais crianças à deriva, procurando luzes de Natal para se aqueceram, e se encontrarem ausência de calor humano na casa do governo, as boas notícias de agora tornar-se-ão más notícias, porque com fome e com frio não há aprendizagem nem resultados. E assim virá a má notícia… a de que descemos no ranking da OCDE. E também a outra má notícia… a de que as retenções subiram. Má notícia ainda… a de que os professores foram os grandes responsáveis por estas más notícias.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Perfil

SML 1b.jpg



Visitantes


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Quimeras


Alma, Eléctrico!


Livros

Capa - 3ª Edição.jpg

Capa - Frente.jpg

Capa Bocage.jpg 

Capa.jpg 

Eléctrico - Um Clube com Alma.jpg

Mistério Sant Quat (I).jpg


Livros-vídeo


eBooks




calendário

Janeiro 2011

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D