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COLUNA VERTICAL



Quinta-feira, 31.03.11

A minha intervenção no plenário do PSD de Abrantes

Santana-Maia Leonardo - Intervenção no plenário do PSD de Abrantes de 19/3/2011 

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Saí do plenário do passado dia 15 de Janeiro convencido, tendo em conta o tom moderado e apaziguador de todas as intervenções, de que o PSD tinha, finalmente, conseguido encontrar um novo caminho e um ponto de equilíbrio entre as diferentes individualidades que o compõem, assente no respeito mútuo, nas garantias de democraticidade interna, na liberdade de opinião e no respeito pelos estatutos.

Pelos vistos, fui demasiado optimista.

Pelo facto de ser vereador, pertenço, por inerência do cargo, a uma comissão política que termina o mandato no final de 2011. Qual não foi, pois, a minha surpresa quando recebo por mail, no passado dia 24 de Janeiro, um comunicado assinado pela presidente da comissão política que, entre outras coisas, dizia o seguinte: «Vamos solicitar ao Sr. Presidente da Mesa da Assembleia do PSD de Abrantes, a marcação de eleições» (DOC.1).

Vamos?!... Vamos?!... Mas tinha havido alguma reunião da comissão política para se tomar esta decisão e aprovar este comunicado? Já alguém se tinha demitido? A presidente não se tinha demitido certamente, uma vez que era ela que assinava o comunicado e reunião também não tinha havido porque não foi convocada. 

Em todo o caso, à cautela, liguei aos dois vice-presidentes que me informaram que nem se tinham demitido, nem tinha havido qualquer reunião para aprovar aquele comunicado. Por sua vez, no Facebook da comissão política (o local privilegiado para a divulgação de informação do partido, segundo o comunicado público de 15 de Janeiro), nem informação da demissão da comissão política, nem da convocação de eleições.

Sem que mais nada se tivesse passado entretanto, no passado dia 25 de Fevereiro (6ª Feira), recebo no meu mail uma convocatória de eleições para a concelhia a realizar no dia seguinte (dia 26 de Fevereiro, sábado), com a informação de que «as listas de candidatos deverão ser apresentadas ao Presidente da Mesa da Assembleia até às 24 horas do terceiro dia anterior ao do acto eleitoral» (DOC.2) (????!!!!...).

Ou seja, os militantes e os membros da comissão política (não alinhados com o novo alinhamento da senhora presidente, obviamente) tomaram conhecimento da antecipação das eleições para a concelhia na véspera da eleição, ao mesmo tempo que eram informados de que o prazo para apresentação de listas já tinha terminado. E tinha terminado não só o prazo para apresentação de listas como também o prazo para o pagamento das quotas que os habilitavam a participar nas eleições, quer como candidatos, quer como eleitores.

Isto é que é um partido transparente e democrático?!... Se o Salazar se tivesse lembrado disto, podíamos ter vivido 48 anos em democracia...

Recordo que a anterior comissão política e a mesa da assembleia solicitaram, expressamente, a todos os militantes para lhes fornecerem o seu mail de contacto, para receberem, em primeira mão, todas as convocatórias e comunicados.

Quer dizer, enchem-nos a caixa de correio do mail com comunicados e convocatórias repetidos a propósito de acontecimentos menores, mas não há oportunidade para enviarem aos militantes e aos membros da comissão política em funções um comunicado ou uma simples informação a dar conta da demissão da comissão política e da data das eleições ou a convocatória das mesmas com a antecedência estatutariamente devida?!...

E, para a comédia ser completa, só faltava agora mais um momento Chavez dos nossos presidentes garantindo que cumpriram religiosamente o Regulamento Eleitoral, tendo afixado a convocatória na sede em local bem visível. Visível para quem tivesse a chave da sede, bem entendido, porque a sede, à cautela, esteve sempre fechada até ao acto eleitoral, não fosse alguém retirar a convocatória de local tão visível.

Forçoso será, pois, concluir que os órgãos sociais, assim, eleitos tem, certamente, legitimidade democrática na Venezuela e em países afins, não têm, obviamente, legitimidade democrática, à luz dos princípios estruturantes das democracias liberais que o nosso partido professa e que estão, aliás, bem expressos nos estatutos e até no artigo 1º, nº1, do Regulamento Eleitoral. E se há alguém no nosso partido que desconhece os princípios estruturantes das democracias liberais era bom que os fosse aprender, até porque ninguém devia ser admitido como militante se os desconhecer, nem devia manter-se como militante se os violar.

Isto é tão evidente que basta comparar com a forma como foi convocada esta assembleia de militantes. Esta assembleia foi convocada por mail enviado aos militantes no dia seguinte à sua publicação no Povo Livre. Além disso, ainda foram enviados mais dois sms de confirmação. Por sua vez, a assembleia eleitoral foi convocada por mail, na véspera do acto eleitoral e trinta dias depois da publicação no "Povo Livre".

Respondam com honestidade, qual das duas convocatórios é mais importante e urgente para os militantes: a convocatória desta Assembleia ou a convocatória de uma Assembleia eleitoral em que há prazos para a entrega de listas, para recolha de assinaturas e para pagamento de quotas?

Tudo isto seria ridículo, se não fosse triste porque revela o perfil de alguns dos nossos dirigentes concelhios. A geração Sócrates, pelo vistos, também já tomou conta da nossa secção. Mas isso não deve ser motivo de orgulho para nós. Muito pelo contrário. Como todos sabemos, a geração Sócrates é uma geração que aprendeu a usar os princípios e os valores apenas como arma de arremesso para agredir os adversários, sem nunca os aplicar às suas condutas, que se regem apenas pelos seus mais mesquinhas interesses particulares. Ou seja, é uma geração sem princípios que não olha a meios para atingir os seus fins.

Os socialistas fazem o mesmo? Claro que fazem, mas os socialistas não devem servir de exemplo para ninguém. E o que ganha o povo português em trocar o PS pelo PSD, se os sociais-democratas, até numas simples eleições concelhias, privilegiam a golpada, a esperteza saloia e o"chico-espertismo? E não vale a pena desvalorizar estes pequenos episódios partidários, porque é, precisamente, nas pequenas coisas que as pessoas se revelam.

A senhora presidente agiu não só com má fé e com reserva mental como usou em benefício próprio informação privilegiada que estava obrigada a partilhar com os militantes e os restantes membros da comissão política, violando descaradamente o princípio da confiança que os militantes e os membros da sua comissão política devem ter no presidente da concelhia de que este os informará, designadamente, por mail e pelo Facebook, como lhes foi garantido em plenário de militantes, das informações relevantes do partido.

Quando me candidatei pelo PSD a presidente da câmara, fi-lo em nome de um concelho mais democrático, livre e participativo e contra a corrupção, o compadrio e o clientelismo. E estes princípios não são sequer negociáveis. É, por isso, com profunda tristeza e vergonha que assisto, dentro da minha própria secção, ao alastrar de um mal que nos propúnhamos erradicar e combater se ganhássemos as eleições autárquicas.

Como pode um partido prometer, com seriedade, a regeneração do concelho ou do país, quando não consegue sequer regenerar-se a si próprio? Como dizia Aristóteles, «o princípio é a metade de tudo». E se o PSD de Abrantes quer, na verdade, ser o motor da regeneração concelhia então deve começar pelo princípio. Ou seja, por si próprio. Até porque não há outra forma de começar.

Face exposto e à gravidade e ao caricato da situação, quero deixar clara, desde já, a minha posição, para não alimentar mais polémicas:

     1. No dia em que a secção de Abrantes do PSD decidir começar a respeitar as regras e os princípios de funcionamento característicos das democracias liberais, poderá contar com a minha participação, colaboração e disponibilidade.

     2.  Enquanto continuar a adoptar as regras de funcionamento típicas da democracia venezuelana, contará, inevitavelmente, com o meu distanciamento e a minha oposição frontal, reservando-me o direito, em nome da dignidade dos vereadores e da defesa dos princípios fundamentais das democracias liberais, de tornar público este documento.

Abrantes, 19 de Março de 2011

O militante nº8513 

 

Vide posts relacionados:

Nota explicativa

Carta aberta aos abrantinos 

As razões da minha desfiliação do PSD

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4 comentários

De O Cidadão abt a 01.04.2011 às 00:52

Olá, Dr. Santana-Maia.


Desiludido, hein?

Com a publicação de quatro textos quasi sequenciais abordando as tropelias de alguns elementos da concelhia abrantina do PSD, tudo nos leva a crer que o mister Dr. se está a deixar envolver numa espiral com esses buíças...

Dentro da sua área de formação, este tipo de exposição não lhe poderá resultar contraditória e prejudicial?

Não estará sendo objecto de um esquema perpetrado de divisionismo político-partidário com o intuito de lhe resgatarem a imagem política, através dos meandros da conflitualidade humana? Quando constata isto:

«Quando me candidatei pelo PSD a presidente da câmara, fi-lo em nome de um concelho mais democrático, livre e participativo e contra a corrupção, o compadrio e o clientelismo. E estes princípios não são sequer negociáveis. É, por isso, com profunda tristeza e vergonha que assisto, dentro da minha própria secção, ao alastrar de um mal que nos propúnhamos erradicar e combater se ganhássemos as eleições autárquicas.»

Terá havido da sua parte uma dose de ingenuidade ou de boa fé bem explorada por determinados elementos do PSD local?

Não é intenção calar-lhe a mágoa e a razão mas... que tal, passar adiante e de cabeça fria?

De Rexistir a 01.04.2011 às 02:21

Cidadão Abt

Para mim este é assunto encerrado, mas não podia pôr uma pedra no assunto sem deixar claro porque me afasto.
Para si, isto pode ser um episódio irrelevante mas, para mim, ele é a génese de todos os males deste país e a principal causa da situação em que está o nosso país.
A espertaza saloia, em qualquer país que se preze, é motivo de vergonha, mas em Portugal é a principal causa de sucesso. A agricultura, a saúde, a segurança social, a educação, a justiça... tudo se desmoronou à conta da esperteza saloia na obtenção de fundos, de benefícios indevidos, de canudos universitários, de absolvições, etc.
E é à conta da esperteza saloia que se salta de uma concelhia para director do Centro do Emprego ou para uma direcção regional. Em Portugal, a esperteza saloia é a principal causa de sucesso individual e de desgraça colectiva. E depois ainda têm a lata de andar por aí a pregar o mérito e a falar contra o facilitismo. Isto revolve-me o estômago porque sempre vivi do trabalho e estou farto de ser governado por oportunistas e parasitas.
SM


De O Cidadão abt a 01.04.2011 às 21:25

Ora bem!
Caro Dr. Santana-Maia.

Desde a esquerda, passando pelo centro, até à direita, há muitos fulanos que evoluem na política, não com o intuito de servirem o povo que os elegerá mas para dele se servirem como trampolim para alcançarem benesses pessoais.
Daí em diante, funciona um sistema bem montado, com uma engrenagem untada a azeite ou outros lubrificantes com mais ou menos betão.

Os que detêm o poder vão delegando competências segundo a lógica piramidal de um amiguismo hierárquico e todo aquele que discorde é considerado um grão de areia na engrenagem, um desalinhado.

Este amiguismo que todos constatamos funcionar nas instituições púbicas é extensível às empresas de iniciativa privada aconchegadas aos poderes institucionais. É o filho do fulano, é a esposa do outro, é o tio do beltrano, é a prima, é a amiga da prima do dito cujo, ou a empresa de fulano de tal que em determinado momento salvaguardou os interesses de sicrano, originando o clientelismo e assim por aí adiante.
Quem por princípios ou valores morais se coloque fora deste circuito viciado e viciante, é instigado a afastar-se para a margem.
Isto funciona com mais ou menos intensidade por todo o país e Abrantes não é tanto uma excepção mas um exemplo do sistema.

A política não é suja, certos políticos são que a sujam.
Por estas e por outras é que pulula por aí muito sucateiro da política!
Hoje em dia vai sendo difícil de se encontrar um partido liberto destes spécimens.

Continue interventivo nas assembleias municipais porque há muito que em Abrantes não se vislumbrava uma acção tão interventiva que até nos aparenta incomodar alguns elementos mais acomodados da ala política que vossa Exa. advoga.
Serão os danos colaterais...

Prontos, caro Dr. Santana-Maia, para terminar esta troca de impressões, cá o Cidadão abt recomenda-lhe umas tomas de Guronsan’s, ou o uso frequento do princípio activo do Lansoprazol, enquanto mantiver a sua conduta, claro está!


Deste munícipe do concelho no geral!
P´lo Cidadão abt

De Rexistir a 02.04.2011 às 02:24

Cidadão Abt

Concordo consigo e nunca tive grandes ilusões a esse respeito.
Mas, quando me envolvi nisto, convenci-me de que era possível constituir um pequeno grupo de pessoas que tivessem da política um sentido de missão e de serviço público que pudesse servir de exemplo aos outros e que fosse capaz de resistir às tentações do poder.
A minha desilusão e a minha grande mágoa reside precisamente no facto de uma das pessoas em quem eu mais confiei se ter deslumbrado literalmente com as oportunidades com que a distrital lhe acena em caso de vitória do PSD nas legislativas. E nem olhou para trás...
Isto faz-nos descrer da natureza humana...
No entanto, verdade se diga, tenho conhecido pessoas de uma lealdade e de uma correcção que não esperava e que me surpreendeu. Em regra, é sempre de quem nós menos esperamos que vêm as boas surpresas...
Santana Maia


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