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COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

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"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

Santana-Maia Leonardo - in Nova Aliança

 

Recentemente, na mesa ao lado da minha, assisti a uma conversa entre um grupo de amigos que, partindo do princípio aceite por todos de que o futebol inglês era o único verdadeiramente espectacular do ponto de vista do espectador e do adepto, ou seja, um futebol corrido, sem tempos mortos e sem anti-jogo, sugeriam uma série de alterações às leis do futebol e aos regulamentos, por forma a que, também, em Portugal, se pudesse usufruir de espectáculos idênticos.

 

Foi, nesta altura, que decidi interromper a conversa para fazer uma simples pergunta: «Mas as leis do futebol não são iguais em Inglaterra e em Portugal?» Pois é, então, parece que o problema não há-de estar nas leis.

 

No entanto, podem ter a certeza de que, se a FIFA entregasse aos portugueses a gestão do futebol, em vez das 17 leis do jogo, hoje teríamos vários códigos com milhares de artigos, os quais, por sua vez, haviam de remeter para regulamentos que ainda estariam por elaborar ou já estavam revogados ou semi-revogados.

 

E o mais certo era, neste momento, todos os campeonatos estarem suspensos à espera que o Tribunal Constitucional decidisse se o facto de os jogadores entrarem em campo com o pé direito ou de se benzerem poria em causa o princípio da igualdade ou ofenderia o princípio de laicidade do jogo de futebol.

 

Para já não falar nas alterações contínuas das terminologias: os "pontapés de canto" passariam a chamar-se "pontapés de esquina" e, no ano seguinte, "corners de esquina", e no seguinte "esquinas de pontapés", "pontapés de corner", "pontapés de ângulo", "pontapés de esguelha"... até se esgotar a capacidade inventiva do legislador, altura em que se regressava ao "pontapé de canto".

 

Este é que é o nosso grande problema estrutural: pensarmos que os problemas se resolvem sentados numa cadeira a fazer leis e regulamentos e a mudar os nomes às coisas. Ora, este país só terá solução quando, durante três legislaturas sucessivas (no mínimo), os nossos deputados se reunirem três semanas por mês para rasgar leis e uma semana para fazer pequenos acertos e correcções no sentido de simplificar e tornar mais claras as poucas que se salvarem do caixote do lixo.

 

Infelizmente, ainda não vai ser na próxima legislatura que se vai iniciar a única grande reforma estrutural de que o país precisa porque só já vejo por aí políticos de lápis em punho a imaginar-se no poleiro a redigir os compêndios legislativos das salvíficas reformas estruturais com aquele ar radiante de poeta que se prepara para escrever um poema épico.