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"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."
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Pedro Lomba - Como é que se explica que os governos portugueses, sobretudo a partir do cavaquismo, tivessem tido uma apetência tão grande pela despesa? Foi só a democracia? Foram só as eleições?
Vasco Pulido Valente - Em primeiro lugar foram as eleições. Não só no sentido de ganhar votos, mas de não os perder. Foi o Cavaco que empurrou o carrinho pela descida abaixo. Lembra-se daqueles anúncios que ele fazia: "Aumentei as reformas, aumentei as pensões". O Cavaco começou. Em segundo lugar, uma enorme pressão da classe média que derivou da própria ideia de se fazer um Estado Social porque se começaram a fazer licenciados, mestres e depois doutores, etc. Era preciso dar emprego a essa gente. E depois deixou-se o sistema universitário inchar até aos limites e começar a fazer licenciados como quem abre uma torneira. A Revolução significou fazer uma classe média. Eu tenho escrito isto muitas vezes e lamento ter de repetir. Era preciso fazer uma classe média para sustentar o regime e empregou-se a classe média no Estado. Toda. Nas profissões, com as qualificações mais estapafúrdias. Empregou-se aquela gente a eito. Por isso é que nós temos 700 mil funcionários.
O Estado Social primeiro emprega, depois sustenta-a. Se você tiver a saúde de graça, uma reforma garantida, a educação dos filhos gratuita, o seu rendimento disponível cresce enormemente. Não só o Estado emprega a classe média, mas tira-lhe responsabilidades. Criou-se o homem irresponsável, o homem que não tem que pensar no que vai suceder amanhã, porque tem tudo pago. Está lá o Estado. Ainda por cima, a classe média é por definição e sobretudo a classe média do funcionalismo conhece muito bem o Estado Social e é perita em saber as maneiras como ele se pode usar, quanto é que pode extrair dele. Enquanto o semi-analfabeto que anda por aí pode não saber que tem direito a isto ou àquilo, ou que se fizer isto ou aquilo, não sabe tratar dos impostos, não sabe como comprar medicamentos mais baratos. Portanto, o Estado Social favorece é a classe média, não os pobrezinhos. Isto é um lugar-comum na Europa.
Pedro Lomba - Muitos resistem a esse lugar-comum?
Vasco Pulido Valente - Sim. Há outra razão que foi a saloiice portuguesa. Os outros têm, nós também temos de ter. (...)
Pedro Lomba - A sociedade civil continua débil?
Vasco Pulido Valente - Com certeza. O Estado Social não os enriquece. O Estado Social é um bem de consumo. O Cavaco não fez nada pela produção portuguesa. Acabou com a frota pesqueira, com a agricultura, com várias coisas. Nunca percebeu que a justiça era importante. Quando lhe diziam, nenhuma economia funciona sem a santidade dos contratos, não percebia. Ainda hoje percebe pouco do que se passa à volta dele. E tem a força dos obcecados. Leia as memórias dele e veja.
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Extracto da entrevista de Pedro Lomba e Vasco Pulido Valente
Público (P2) de 21-11-11
