PORTUGAL MORA NAQUELE CONTENTOR
Editorial do Público de 2/3/12
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O caso tem vindo a ser falado, ora nas televisões ora nos jornais, e de cada vez que é contado parece ainda mais inacreditável.
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Um casal de idosos viu a sua casa inutilizada em 2003 por via das obras para construir um viaduto na A10, no troço de auto-estrada que liga Bucelas a Benavente. As paredes racharam, o chão fendeu-se, o poço, a garagem e a arrecadação ficaram destruídos.
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Perante tal cenário, os idosos avisaram os engenheiros no local. Instalaram-nos então num contentor, com tudo o que havia em casa, mobília e outros haveres, dizendo-lhes que "era só por dois meses".
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Ora a A10 ficou pronta, mas o contentor ficou ali, com dois seres humanos lá dentro, até hoje. (...) O caso foi-se arrastando pelos tribunais, com um processo metido em 2003 em que se pedia uma indemnização de 203 mil euros. Muito? Pouco? A justiça decidiria.
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Mas o que foi judicialmente decidido, este ano, foi arquivar o processo. Porquê? Porque o empreiteiro faliu em 2007 com um rol tamanho de credores que, entre eles, o casal de idosos ficaria sempre para trás.
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Pior: entre os credores estão o dono do terreno, o dono do contentor e até o dono dos aparelhos de ar condicionado ali instalados "provisoriamente", que até já foi buscá-los para "amortizar" a dívida.
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Resultado: o casal de idosos decididamente está a mais. Num país onde só paga quem quer, onde é possível falir e desaparecer, onde a justiça demora anos a decidir o que devia ser decidido em semanas, é um casal de septuagenários (que estava muito descansado em sua casa até lha destruírem) que entope o sistema. Portugal, é caso para dizer, mora inteiro naquele contentor.