Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

COLUNA VERTICAL



Sexta-feira, 20.04.12

O MAL VEM DE LONGE

Artur Lalanda

.

Em 12 de Novembro de 1975, o jornal “NOTICIAS”, de Lourenço Marques, noticiava, sobre o Panorama Económico de Portugal:

.

«Desde o 25 de Abril já consumimos cerca de 45 milhões de contos das reservas e, a continuar neste ritmo, um dia chegaremos ao fim do saco. Nesse momento não poderemos comprar lá fora o que precisamos – trigo, milho, petróleo, etc. Será a bancarrota.

Eis as palavras com que o Ministro das Finanças, Salgado Zenha, advertiu o povo português, durante uma alocução através da Televisão Portuguesa.

.

Salgado Zenha, que disse falar como político e não como técnico, abordando as nacionalizações feitas desde o 25 de Abril, que classificou de políticas e que assim terão de ser mantidas, alertou para o facto de o Estado simultaneamente ter intervido e nacionalizado, praticamente, pequenas e médias empresas industriais e comerciais, provocando o profundo repúdio da imensa maioria da população. Nesses sectores, - prosseguiu Salgado Zenha – da pequena e média iniciativa privada, o proprietário desempenha um grande papel no seu funcionamento.

.

Nesta perspectiva, Salgado Zenha sublinhou que os pedidos de aumento que estão em curso no sector da construção civil e cuja satisfação integral implica um aumento da massa salarial em cerca de12 milhões de contos, são perfeitamente incomportáveis para os pequenos e médios empresários que, neste ramo, dão trabalho a cerca de 70% da mão de obra. Vamos alimentar os salários de uns à custa do desemprego de outros ? O país que responda, concluiu Salgado Zenha.

.

Pormenorizando a actual situação financeira, Salgado Zenha revelou ainda que o déficite orçamental do Estado será este ano de cerca de 32 milhões de contos, ou seja, perto de 8% do total das despesas públicas, sendo o Ministério das Finanças, neste momento, avalista de mais de 28 milhões de contos.

.

Por fim, depois de anunciar estarem sendo estudados, para o sector nacionalizado, investimentos de mais de 300 milhões de contos no período de 1976/1980, plano que, segundo disse, só será viável pela criação de um projecto comum de vida nacional, pelo respeito das regras democráticas, o Ministro das Finanças afirmou: estão os portugueses de acordo com este programa ? Ou não estão ? Sabê-lo-emos em breve, nas próximas eleições.»

 .

Regressei de Lourenço Marques e acabei envolvido na gestão das muitas empresas intervencionadas, em resultado da nacionalização da banca.

. 

A “bagunça” era de tal ordem que, por despacho conjunto de três ministros, publicado no Diário do Govêrno (não me recordo se já era Diário da República), pude ler que o Dr. Artur Nogueira Lalanda (eu que, oficialmente, apenas completei o curso geral dos liceus e garanto que não foi num domingo) integrava a comissão de gestão do grupo Leon Levy , que tinha sede em dois andares do edifício Cimianto, na Fontes Pereira de Melo, em Lisboa.

 .

Era um grupo de 10 empresas, administradas pelo Sr. Leon Levy (judeu), fortemente endividadas, especialmente em dois bancos nacionais, voltadas para o sector do turismo.

.

Integravam, em franca actividade, dois aldeamentos turísticos (Aldeia do Mar, em Quarteira e o luxuoso Vila Lara, em Albufeira) além de uma agência de viagens na Praia da Rocha, em Portimão.

.

Reinava, como 1º ministro,o Dr. Mário Soares.

 .

Em plena actividade, especialmente os dois aldeamentos, na época alta, empregavam, temporariamente, cerca de centena e meia de pessoas que eram contratadas em Abril de cada ano. Em 25 de Abril, a maioria da pessoas estava ao serviço.

 .

Aconteceu que as nacionalizações e a descolonização “exemplar”encheram as muitas moradias e os dois blocos de apartamentos da Aldeia do Mar, com retornados das ex-colónias e Vila Lara deixou de receber os capitalistas europeus que tinham à sua disposição, até uma praia privativa em pleno Atlântico.

. 

As receitas que entravam, para acorrer aos salários dos trabalhadores que, entretanto,haviam exigido e conseguido a sua permanência no quadro, durante todo o ano, limitavam-se ao subsídio pago pelo IARN (Instituto de Apoio aos Retornados Nacionais), e cobriam uma reduzida percentagem de todas as despesas certas.

. 

O dinheiro nunca faltou. Ia-se ao Ministério das Finanças com uma livrança de 5, 10 ou mais milhares de contos, obtinha-se o aval do Estado e, imediatamente, o banco habilitava a conta de depósito à ordem.

 .

Esta situação, insustentável, foi a preocupação dominante do primeiro relatório semestral entregue na Secretaria de Estado do Turismo da época.

.

Contra o que eu pensava, o despacho do 1º Ministro foi: “Prorrogue-se a intervenção por mais seis meses”.

. 

Sucederam-se as livranças avalizadas, em função das necessidades e, passados mais seis meses, o novo relatório bateu a mesma tecla da insustentabilidade da situação. Como o saco, possivelmente, ainda não tinha chegado ao fundo, lá veio novo despacho do 1º ministro: “Prorrogue-se a intervenção por mais seis meses”

.

Os portugueses continuavam a viver à tripa forra e a deitar-se na cama das facilidades que lhes era proporcionada pelos políticos do momento. Multiplicavam-se os Bentos à nascença e os Benzidos pelas estruturas partidárias.

 .

Nessa altura, pensei eu, um dia destes vem aí outro 24 de Abril e ainda acabo responsabilizado por colaborar na ruína das finanças públicas. No dia seguinte pedi a demissão, mas nem por isso, outros, mesmo muitos outros, deixaram de manter o ritmo de delapidação do erário público que era notório e condenável. Nunca soube que lhes tivesse sido atribuída qualquer outra responsabilidade, para além da política.

. 

Pelo andar da carruagem conclui-se que os portugueses “estavam de acordo com o programa” de que falava Salgado Zenha. Eu nunca estive.

. 

Esgotado o saco de que falava o ministro, começam a entrar os milhões da Europa e os portugueses cantando e rindo, vão-se regalando no mar de facilidades de toda a ordem que lhes era proporcionado por tanta fartura. A verdade é como o azeite e acabou ao de cima. A factura já chegou.

.

Vem aí a data que, repito, já só é festejada pelos comensais da mesa do orçamento e pelos aspirantes a uma cadeira à volta da mesma mesa. O POVO, esse, espero que já tenha percebido que a cama que lhe estenderam o deixou com os pés de fora e o mar de rosas que lhe prometeram, desaguou no vale de lágrimas em que vive.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



Perfil

SML 1b.jpg



Visitantes


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Quimeras


Alma, Eléctrico!


Livros

Capa - 3ª Edição.jpg

Capa - Frente.jpg

Capa Bocage.jpg 

Capa.jpg 

Eléctrico - Um Clube com Alma.jpg

Mistério Sant Quat (I).jpg


Livros-vídeo


eBooks




calendário

Abril 2012

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D