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COLUNA VERTICAL



Sexta-feira, 27.04.12

CAIU-LHES A MÁSCARA

Artur Lalanda

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“D. Vasco de Melena e Pá” foi à TV e disse de sua justiça: “não estaremos nas comemorações oficiais. A nossa festa vai ser com o povo” (se não foram estas as palavras andou perto). Outro dos capitães de Abril, também na TV, declarou que, nesse dia, ia para a Barquinha praticar apicultura, ou coisa no género.

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Antes de expressar o que penso escrever, devo esclarecer: nasci em 1930, votei Humberto Delgado, (apesar de nessa altura ser funcionário público), estava em Moçambique em Abril de 74, sempre desejei ser livre e sempre entendi correcta a ideia da independência das ex-colónias.

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Já ouvi um comentador político, chamar a esses revolucionários a “brigada do reumático”, mas antes de os qualificar com outros adjectivos, gostaria de tentar perceber as verdadeiras razões que os conduziram a práticas que, aos olhos de muitos dos seus pares, são actos heróicos. Eles próprios, a todo o momento, enchem a boca com os seus feitos e ninguém, que eu saiba, tem tido a coragem de lhes pedir umas explicaçõesinhas.

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A diferença entre um militar e um civil, para mim, ficou registada no período da 2ª grande guerra (1939/1945). Recordo-me que os produtos essenciais eram racionados e controlados por senhas, para a população em geral, mas quem tivesse um familiar ou amigo na tropa, tinha garantida a quantidade necessária, por exemplo, de açúcar ou bacalhau. Eles tinham tudo, nós não tínhamos nada.

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Se bem me lembro, e muitos dos portugueses de hoje não podem lembrar-se porque não eram nascidos, a guerra nas ex-colónias foi um autêntico “maná” para os militares.

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Disputavam as comissões no ultramar e, quando terminavam uma, já estavam desejosos pela seguinte. Tudo lhes servia para ajudar à compra ou construção da moradia no Bairro do Restelo, em Lisboa. Iam, (os do quadro -aqueles que passaram pela antiga escola do exército, ou pela escola de Águeda - os chamados “lateiros” – levavam a esposa, muitas delas acabavam funcionárias civis dos departamentos militares), ficavam pelos quartéis em tarefas administrativas e para o mato mandavam os soldados e os  sargentos e oficiais milicianos.  Era interessante que fosse pública a lista dos sargentos e oficiais caídos em combate, apurando a percentagem de homens do quadro e homens milicianos.

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Os milicianos, que entravam na guerra como aspirantes ou alferes, grande percentagem foi promovida a capitão para comandarem as companhias que actuavam em zonas complicadas. Os profissionais, estavam-se nas tintas para a defesa dos valores pátrios que lhes ensinaram. É que ela é negra…e Magiolos Gouveia houve poucos.

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Em 1968 eu estava em Nampula, cidade do norte de Moçambique que acolhia o quartel general da “província”. Ali moravam os altos comandos de todas as especialidades do exército. Por exemplo, o comandante da engenharia militar, ocupava um apartamento de luxo, cuja renda era paga por uma empresa local, grande fornecedora da tropa (o pagamento era processado no local onde eu trabalhava). Nunca pude confirmar a informação que, nessa altura, me deu o gerente da empresa, de que quando esse comandante veio de férias à metrópole (era assim que se dizia) tinha à sua espera, no aeroporto de Lisboa, um mercêdes oferecido por essa empresa.

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No Praça do Infante, em Nampula, havia uma mercearia particular (mercearia infante), onde nada de bom faltava para a população civil. Tinha ali perto os armazéns de viveres do quartel general militar, onde ninguém vivia à míngua de nada. À boca pequena, muitos garantiam que a mercearia era “fornecida” pela cantina militar.

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Em 1972, fui, temporariamente, a Tete, para resolver uma situação complicada. Era uma zona “quente” pela proximidade das obras que decorriam no Songo, para construção da barragem de Cabora Bassa e da exploração de carvão nas minas de Moatize, a 20 km da cidade. Em Tete havia um forte contingente militar, comandado por altas patentes.

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Passaram-me pelas mãos coisas interessantes: os militares quiseram construir casas para praças e, para tanto, contrataram a “Construtora do Zambeze”, que por força da sua situação financeira deficitária, tinha a conta de depósito à ordem sob o meu controlo directo. Acabadas as obras, foi emitida a respectiva factura. Veio o cheque e o dinheiro entrou na conta da empresa. Pouco tempo depois, aparece o gerente da empresa a informar-me que o sr. comandante lhe tinha pedido outra factura e não contente com isso, ainda lhe proporcionou a compra de umas centenas de sacos de cimento que tinham de sobra no quartel. Lá tive que autorizar a emissão do cheque para pagar o cimento ao sr. comandante…

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Claro que no rebanho, nem todas as ovelhas são ranhosas, mas há muitas que sofrem da doença e conseguem disfarçá-la.

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Todos os chamados “capitães de Abril” foram formados na escola dos “fascistas”, com quem colaboraram e à custa de quem fizeram vida grande.

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Aceito que tenham concluído pela necessidade de conseguirem a liberdade que nos trouxe o 25 de Abril, mas daí até aceitar que esse foi o objectivo primeiro, vai uma distância abismal. A revolta que iniciaram quando o governo de Lisboa pensou atribuir benesses iguais aos muitos milicianos ao serviço da Nação, foi o que eles usaram como pretexto primeiro para a revolução que degenerou na conquista da liberdade. Reagiram à perda de benesses e não à defesa dos interesses do País. Na altura própria o assunto foi público.

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Queriam a democracia que agora renegam. Então não foi o Povo que elegeu todos os governos ditos democráticos ?

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Não estou certo que o actual governo consiga sair do “buraco” onde o País se encontra, mas tenho a certeza que a manutenção do anterior executivo agravaria a situação.O Presidente da República, apesar de ser economista, só concluiu que tudo foi mal conduzido, depois de ter sido reeleito, também os militares (e não só) aparecem agora a negar a escolha dos eleitores, que é a negação da democracia que defenderam. E depois dizem que vão fazer a festa com o Povo. Qual Povo ? O que é forçado a emigrar, como no tempo da ditadura, não por falta de trabalho, mas na mira de melhores condições de vida, ou o que por cá se conserva a fazer sacrifícios de toda a ordem para pagar as dívidas que os políticos contraíram, em nome do País e a assistir à péssima distribuição da riqueza nacional ?

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O que fizeram esses capitães, desde 1974, para continuarem a pavonear-se, sem nenhum proveito para o País e a serem promovidos na inactividade ? Agora que são forçados a partilhar a miséria de Portugal, para que contribuíram em silêncio e vêem as suas benesses atingidas, apresentam-se como defensores de uma democracia que dizem não existir! Esta é a democracia que eles conquistaram, juntamente com a liberdade que todos ambicionaram e lhes permitiu o regabofe em que têm vivido. Ou será que preferiam a continuação do mar de rosas em que se encontravam ?

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O Povo já não faz festa e heróis que colocam o interesse próprio acima do interesse público, já passaram à história !

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De Santa Comba Dão veio um político que não era democrata mas que, apesar de tudo, como financeiro, deixa a léguas de distância todos os gestores públicos que lhe sucederam. Apesar de ter sustentado a guerra em Africa e a corrupção generalizada dos seus protagonistas nacionais, ainda deixou o saco das reservas que Salgado Zenha, enquanto ministro das Finanças, em 1975, dizia estar ameaçado de chegar ao fundo. Ele, morreu modesto, tal como entrou e nem sequer teve habilidade para arranjar uma reforma de 3 000,00 euros para a mãe, que era costureira. Isso, são frutos da democracia com que os inesperados ausentes das comemorações de Abril se habituaram a conviver e não interessam ao Povo, mas apenas aos defensores de valores morais que, por certo não lhes foram ministrados na escola dos “fascistas”, onde se formaram..

 

Por mim, agradecia-lhes a liberdade, mas passava-os de heróis para “chicos”, para não ser muito violento. A vaca já tem as tetas secas…

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