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COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

João Carlos Espada - Público de 21-2-2012

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Perante o que se passa na Grécia, é possível considerar como boa notícia a eleição de François Hollande em França. Não seguramente porque concordemos com o conteúdo das suas propostas políticas. Mas porque a sua eleição tem o mérito de trazer para o interior dos parlamentos e das instituições europeias um debate que não deve ser monopólio dos agitadores de rua. Refiro-me ao debate entre a chamada alternativa entre "austeridade e crescimento".
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(...) todas as opiniões com um mínimo de representatividade, por mais excêntricas, devem poder ter lugar no Parlamento. Este é o princípio que distingue as democracias liberais e que, em muito boa parte, explica a longevidade da democracia entre os povos de língua inglesa. (...)
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Dito isto, convém agora esclarecer que as chamadas políticas de crescimento defendidas por François Hollande são totalmente irrealizáveis. Nem mesmo a França - para não mencionar a Grécia, a Itália, a Espanha ou Portugal - tem dinheiro para injectar nos estímulos pela despesa preconizados por Hollande. E também não pode contrair mais dívida pública a juros razoáveis, pela simples razão de que não há emprestadores disponíveis para correr esse risco. Foi esta impossibilidade que levou a Grécia, a Irlanda e Portugal a terem de pedir auxílio à chamada troika. É a isto que em regra se chama "não há dinheiro", uma expressão que o engenheiro Sócrates teve dificuldade em compreender, até ao momento em que a realidade o compeliu a pedir ajuda externa.
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Por esta mesma razão, a única alternativa para viabilizar as políticas despesistas de François Hollande seria mutualizar a dívida, isto é, criar mecanismos a nível europeu para garantir as dívidas de cada país membro do euro. Por outras palavras, avançar ainda mais na integração federal da zona euro, criando mecanismos automáticos de transferência no seu interior.
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Tem sido dito que isso é inevitável num espaço monetário único e que acontece nos EUA e no Reino Unido. É, em boa parte, verdade. Mas, no contexto da zona euro, isso significaria basicamente impor ao eleitorado alemão a aceitação de uma nova política inevitável: já não a da disciplina orçamental de todos os membros do euro, mas, de futuro, a da garantia alemã às dívidas dos outros.

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E aqui chegamos à razão pela qual a democracia cristã alemã se tem oposto vigorosamente a esta hipótese. É uma razão inteiramente legítima e até honrosa: eles sabem que, no momento em que transferências automáticas sejam impostas na zona euro, sem garantias de disciplina orçamental, o campo fica semeado para o crescimento do extremismo anti-europeu no eleitorado alemão. Será provavelmente um extremismo de sinal contrário ao da extrema-esquerda grega. E os democratas cristãos alemães temem vir a perder nessa altura a influência moderadora que têm detido sobre o seu eleitorado. (...)