O OVO DO CROCODILO
João César das Neves - Diário de Notícias de 21/7/12
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(...) Aquilo que os nossos descendentes não conseguirão compreender é a nossa inacreditável ligeireza e inoperância perante factos devastadores, que subjazem a tudo o mais: "No primeiro semestre deste ano, nasceram menos quatro mil bebés do que no mesmo período de 2011. Se a tendência de decréscimo se mantiver, 2012 poderá ficar para a história como o ano em que os nascimentos não chegaram aos 90 mil, algo que nunca aconteceu desde que há registos" (DN, 5/Julho). Sem portugueses não há economia, consumo, emprego, ensino, justiça, país. Com a atenção centrada no défice, desemprego, ou pior, nas tricas do momento, Portugal resvala para a decadência perante a apatia generalizada.
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Somos um dos países do mundo com menor taxa de fertilidade, muito inferior à dos nossos parceiros, aliás também entre os mais estéreis. Essas sociedades desenvolvidas há muito identificaram o problema e criaram políticas resolutas para o enfrentar, com sucessos muito díspares. Em Portugal a medida recente neste campo é o subsidiação do aborto, que aliás é a única área da Saúde onde os cortes financeiros não têm efeito. (...)
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Que a atrocidade de arrancar o embrião do seio da sua mãe, prática recusada por toda as sociedades cultas, seja por nós promovida pelo Estado será incompreensível aos nossos poucos descendentes.
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Nos raros casos em que o tema surge nas conversas, atribui-se a redução da natalidade à crise e ao desemprego, sem notar a incongruência de serem os pobres os mais férteis. (...)