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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Vasco Pulido Valente - Público de 8-9-12

 

Casaram por volta de 1993-94 ou um bocadinho mais cedo. Trabalhavam os dois e resolveram logo comprar uma casa. O que se compreende: o mercado de aluguer não existia e a banca oferecia dinheiro barato com insistência e entusiasmo. Com algum esforço conseguiam com certeza pagar a prestação mensal e ao mesmo tempo faziam um bom investimento (não era isso que toda a gente lhes dizia?). Ao princípio, as coisas custaram. As despesas com a mobília (mesmo rudimentar), um ou dois filhos, problemas com os mais velhos da família (sobretudo os que ficavam na província) acabaram por exigir uma certa prudência. Mas, pouco a pouco, as coisas aliviaram. Precisavam de um automóvel? O crédito estava lá e não houve a mais leve dificuldade (dali a uns tempos, de resto, compraram um segundo carro, mais barato, para as voltas do dia-a-dia). 

Vieram a seguir alguns pequenos luxos. Primeiro, as viagens. Foram a Espanha ou a Marrocos. No quarto ou quinto ano ao Brasil. E, depois, com o balanço, até mais longe. O desenvolvimento do "Estado Social" aumentava o rendimento disponível: não tinham de se preocupar com a escola dos filhos, nem com a saúde, nem a reforma. Nem sequer com o emprego. O "vínculo" era um seguro de vida para 700.000 funcionários públicos. E, para quem, por ambição ou descuido, "caíra" no "privado", a economia parecia próspera e Portugal numa fase de progresso que se dava por perpetuamente garantida. Não existia qualquer razão para poupar: em fins-de-semana, em jantares fora, num computador pessoal (um para ele, outro para ela), em telemóveis (dois também), em electrodomésticos sofisticados, que não paravam de aparecer. 

Uma nova "classe média" saíra enfim da velha e resignada miséria indígena. Uma "classe média" que se vestia, que falava e principalmente consumia como os "ricos" e como no "estrangeiro". A festa não durou. O Estado, que sustentava esta fantasia, faliu para nossa aflição e vergonha. E, para continuar à tona de água, aumentou impostos, diminuiu ou suprimiu salários, criou desemprego. A casa, orgulho e segurança em 1990, ou voltou ao banco ou vale uma ridícula fracção do que valia dantes. Dos carros, são quase símbolos de um milagre esquecido. Os filhos ou não chegaram à universidade ou, quando chegaram, andam agora por aí aos tombos à procura de um trabalho qualquer. A "classe média" portuguesa dependia das finanças do Estado e a ruína do Estado arrastou por isso, necessariamente, a ruína da "classe média", a quem a crise tirou a propriedade e o futuro.