Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

27 Out, 2012

TROCAR DE POVO

Vasco Pulido Valente - Público de 27/10/2012

.

A frase do ministro das Finanças (há um enorme desvio entre o que os portugueses pensam que devem ter como funções sociais do Estado e o que aceitam pagar por elas) deu grande polémica. Mas Vítor Gaspar não disse só isto. Disse também que era preciso "repensar as funções do Estado" e "alterar profundamente a forma" como ele "opera". E sobre a segunda questão pouca gente falou. Porquê? Por três motivos cruciais. Primeiro, porque a "classe média" indígena é uma "classe" que o Estado fabricou, aumentando o seu pessoal e alargando as suas funções: o número de portugueses que de várias maneiras dependem do Estado (nunca exactamente calculado) não permitiria nesse ponto uma reforma radical. Segundo, porque na prática monopoliza os lugares de decisão política e porque não há eleição que se possa ganhar contra ela. E, terceiro, porque a Constituição proíbe qualquer mudança que altere o actual equilíbrio de forças.
.
Cavaco, um belo dia, chamou ao Estado o "monstro". Mas não explicou como acabar com ele. O Governo da coligação nem sequer tentou. O aumento progressivo das receitas serviu desde o princípio para esconder a impotência para reduzir as despesas. Não sobretudo no "Estado social". Estou a pensar no regime administrativo (central e local), nas dezenas de empresas públicas deficitárias (incluindo as municipais), nas centenas de organismos sem utilidade visível ou inteiramente dispensáveis, nos serviços supérfluos, que se destinam na essência a empregar amigos (como, por exemplo, a avalancha de institutos que nos caiu em cima), em subsídios de favor ou mil vigarices semelhantes. Aqui, nesta área em que no fundo a dívida e défice assentavam, e assentam, o Governo falhou ou não mexeu um dedo: atacou o inimigo mais frágil e disperso, o contribuinte, e deixou à solta os parasitas que se alimentavam do Estado.
.
Os cavalheiros que dominam intelectualmente o primeiro-ministro vêm da América e da "Europa", são "estrangeirados", não conhecem o terreno e não adquiriram a tempo a experiência política necessária para meter na ordem a "classe média" que o Estado criou e continua a proteger. Onde as circunstâncias pediam reformadores, Passos Coelho preferiu a falsa segurança de meia dúzia de técnicos de contas. Escolheu o caminho mais frágil e o mais desastroso. Agora, Vítor Gaspar e, calculo, a coligação inteira não hesitam em se queixar do lamentável povo que lhes saiu em sorte governar e da Constituição que os limita (como se antes não soubessem o que ela era). Como não conseguem trocar de Constituição, a única solução que lhes resta é trocar de povo. O que não seria mau, nem para nós, nem para eles.