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COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

José Manuel Fernandes - Público de 26/10/2012

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(...) No mesmo dia em que Sampaio voltou à tona, foi conhecida uma importante sondagem (...) que revela preferirem os portugueses (82,1%) os "cortes na despesa" ao "aumento de impostos". É uma boa notícia e um sinal de que, após décadas em que só se pedia ao Estado para gastar mais e mais, os cidadãos começam a perceber que isso também implica mais e mais impostos. O problema vem a seguir: cortar sim, mas não na educação nem na saúde, ou seja, não nas áreas onde o Estado gasta a maior parte do dinheiro dos impostos. O que nos conduz a um paradoxo: a população quer um Estado social mas não quer pagá-lo. Ou, se preferirmos, quer um Estado social mais dispendioso do que aquele que os nossos impostos são capazes de pagar. Nisso Vítor Gaspar tem razão. E é por isso que os próximos meses, os próximos anos, vão ser muito duros, pois vai ser preciso chegar a um novo consenso sobre o que queremos que o Estado nos dê e quanto estamos dispostos a pagar. Até lá, não haverá soluções que não sejam muito dolorosas.
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Por entre todas estas dificuldades, começa-se a ouvir um discurso que é muito, mas mesmo muito, perigoso. Vem curiosamente de diferentes quadrantes políticos mas converge num ponto: o questionamento da democracia. Por um lado, há quem proclame (Sampaio foi, de novo, e para nossa desgraça, uma dessas vozes) que a austeridade põe em causa a democracia. De acordo com esta tese, tempos difíceis de cortes podem precipitar o fim do regime. Do outro lado, há quem recorde (nalguns casos com angústia, como sucedeu com César das Neves) que a dificuldade em "controlar a despesa pública" pode muito bem ser "um traço estrutural português só resolvido em ditadura". É bem verdade que o nosso passado não é o mais tranquilizador, mas a ideia de que em democracia não se pode impor a austeridade é, em si mesma, uma ideia autoritária, uma ideia que menoriza a capacidade de os eleitores, mesmo rangendo os dentes, escolherem um caminho diferente do que nos encheu de défices e dívidas. Há muitos sectores que alimentam a ideia de que a democracia tem de continuamente entregar aos eleitores uma dose suficiente de prosperidade para que estes não desanimem ou se deixem tentar por autoritarismos. Ora a democracia não é garantia de prosperidade (apesar de ser a melhor forma de governo para assegurar essa prosperidade). As democracias maduras, como as anglo-saxónicas, mostram-nos que é possível viver longos anos de dificuldades, mesmo de dura austeridade, até de chegar ao ponto de enfrentar a catástrofe de uma guerra, sem nunca colocar em causa o regime ou cair na tentação das revoluções. É tempo de interiorizarmos que são democracias assim as que desejamos, e não ir por caminhos onde o discurso sobre a defesa da "democracia social", por exemplo, pode levar-nos a novas formas de autoritarismo.