Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Vasco Pulido Valente - Público de 31-3-2103

.

Coisa estranhíssima num país católico, ou que se diz católico, quase ninguém discutiu a política do novo Papa, já mais do que evidente. E essa política é importantíssima para a América e para a Europa, onde a Igreja passa pela sua mais grave crise de sempre. A maioria dos católicos aproveita da Igreja o que lhe convém e rejeita o resto. A doutrina ortodoxa foi substituída por uma mistura de crenças, variável e muitas vezes contraditória, que se adapta melhor ao estilo de vida ocidental, não incomoda os crentes no dia-a-dia e sobretudo não impõe a mais leve proibição ao que eles querem pensar ou fazer. Um católico pode hoje, por exemplo, aprovar os contraceptivos, como pode ser a favor da homossexualidade e do casamento homossexual, sem qualquer dor ou distúrbio de consciência. Nestas matérias, o Vaticano passa por uma instituição obsoleta e anquilosada, cuja intransigência se não deve levar muito a sério.

.

O Papa Bento XVI, um velho professor de Teologia Dogmática, insistiu em relembrar os fundamentos da doutrina e em reconstituir, na medida do possível, uma tradição ignorada e, agora, crescentemente desprezada. Não chegou longe, impedido pela indiferença geral e pela resistência interna e externa, que pouco a pouco o isolou. Quando saiu, o seu pontificado estava sem destino. O Papa Francisco resolveu seguir outro caminho. Sendo - como o seu nome indica - um franciscano, pensa manifestamente em reconstruir a Igreja de baixo para cima. Daí a insistência na humildade, no amor à Criação, na fraternidade humana e na pobreza relativa a que ele mesmo conseguiu chegar: não aceitou os sapatos da convenção, recusou o apartamento (suponho que magnífico) que era o dos papas desde o princípio do século XX e escolheu para ele uma hospedaria de padres num canto do Vaticano.

. 

Outros gestos como estes não tardarão a vir com o propósito transparente de surpreender e mobilizar o "povo de Deus". O franciscanismo foi na sua origem um movimento popular, que pretendia reconduzir a Igreja à sua pureza primitiva. Este Papa também não se interessa muito por batalhas teológicas, o que lhe interessa é reconquistar as massas, perdidas no ateísmo e na heresia, para o catolicismo: e a sua vocação para o espectáculo irá com certeza mudar a face da Igreja. Mas sem nenhuma concessão no essencial. O Papa Francisco acredita no Diabo e acredita que o Diabo está por detrás das desordens de que os verdadeiros crentes sofreram a partir de Pio XII. E, além disso, o Pai da Mentira é um inimigo familiar.