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COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

José Manuel Fernandes - Público de 26-4-2013

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(...) Com um Governo PS a austeridade chama-se "rigor orçamental", os défices têm a virtude de serem "investimento", recentemente até se conseguiu que as mentiras passassem a ser designadas por inverdades. As dúvidas, mesmo as mais legítimas, sobre a honestidade dos seus dirigentes são "ataques de carácter", o jornalismo de investigação é um "jogo de lama" e os cortes no Estado social nunca passam de um esforço empenhado de "racionalização". Até o autoritarismo puro e duro passa a chamar-se "autoridade democrática".

 

Orwell explicou-nos, como nenhum outro, que dominar a linguagem é dominar a descrição da realidade, e que fazê-lo é controlar as mentes e os termos do debate político. As modernas "narrativas", que tanto gostam de invocar alguns dos mestres dos jogos de sombra do PS, não são mais do que a versão contemporânea e palatável do "newspeak" do romance 1984. Com uma novidade bem portuguesa: o PS nem precisa de se esforçar muito, pois o "newspeak" nacional, o "newspeak" dos debates na televisão, o "newspeak" do eterno "Prós e Prós" das nossas elites, é o "newspeak" socialista. E as excepções, mesmo quando episodicamente afloram à tona de água, apenas confirmam a regra. Os últimos dois anos são disso prova cabal - basta ver a forma como, este fim-de-semana, o país socialista entronizará um António José Seguro que, malgrado uma inabilidade homérica, conseguiu fazer dos seus temas os temas dessa coisa mole a que chamam "consenso". (...)

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O grande triunfo do PS - e de Seguro - é que, ao fim de dois anos, o país continua a achar que não é necessário cortar nas funções do Estado e que basta "estimular a economia" para voltar a crescer e, assim, deixarmos de falar de "cortes". Como país pobre podíamos acreditar que era necessário mais esforço e mais sacrifício para sermos um pouco mais ricos, mas não. Preferimos acreditar que se gastarmos dinheiro emprestado nos tornamos, por milagre, mais ricos. É um sinal dos tempos. O tempo áureo das ideias socialistas foi quando se defendia que indo buscar aos ricos se enriqueciam os pobres; agora, quando os nossos "ricos" mal emergem da classe média, o grande projecto socialista é contrair e manter dívidas pois, como um dia disse Mário Soares, o dinheiro "aparece sempre". Já não nos apareceu por três vezes, mas ainda não aprendemos. Há razões para festejar em Santa Maria da Feira.