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COLUNA VERTICAL



Quinta-feira, 26.09.13

A síndrome de Estaline

Santana-Maia Leonardo

Compreendo que os líderes políticos defendam, com unhas e dentes, o Poder Local, porque é ele que alimenta os aparelhos dos partidos. Agora chamar-lhe democrático já é muito cinismo e hipocrisia.

Dou apenas um exemplo esclarecedor: a minha filha foi, durante um curto período de tempo (em substituição), vereadora do PSD na Câmara Municipal de Ponte de Sor, de maioria absoluta socialista. Como as suas intervenções no período antes da ordem do dia e protestos não ficavam, por ordem do senhor presidente, transcritos nas actas, passou a votar contra a aprovação da acta com este fundamento. Resultado: o presidente da câmara decidiu acabar com o período antes da ordem do dia (leiam a parte final das actas, disponíveis on-line, de 29/4/2010 e 5/5/2010). Assim, a partir de 29/4/2010 até hoje, mais nenhuma reunião da câmara de Ponte de Sor, por determinação do senhor presidente, teve período antes da ordem do dia.

Isto é ilegal? Toda a gente sabe. Mas o que é que se faz contra isto? Apresentar queixa? Vê-se mesmo que não conhecem nem a nossa justiça, nem a nossa administração. Tudo isso é inútil e só desgasta quem se mete por aí, para mais num meio em que ninguém quer ter o ditador à perna. Um presidente de câmara pode destruir a vida social, profissional e pessoal a qualquer munícipe e seus familiares. Neste tipo de autarquias (que é a maioria), a lei é o presidente da câmara. Ponto final. Ninguém lhes passa pela cabeça o nível que pode atingir a perseguição política (falo por experiência própria) num concelho em que toda a gente depende da câmara até para ir à casa de banho.

E António José Seguro podia dar, ao menos, uma vista de olhos às listas do Partido Socialista. Em Ponte de Sor, autarquia PS desde 1993, na lista da Câmara, a primeira mulher aparece em 5º lugar, na Assembleia Municipal aparece em 6º lugar e na Assembleia de Freguesia aparece em 9º lugar. E viva o velho! Eis como o PS cumpre as leis que defende com tanta convicção na Assembleia da República.

As populações estão reféns deste tipo de ditadores que controlam as suas vidas até ao mais ínfimo pormenor: os seus empregos e dos seus familiares, os apoios às suas associações, os licenciamentos das suas casas, dos seus muros, dos seus anexos e o alcatroamento das suas ruas, os seus electrodomésticos e mobílias, as viagens ao estrangeiro e os passeios pelo País, etc. etc. Além disso, possuem uma rede de informadores que lhes contam tudo o que ouvem e o que se diz a seu respeito no concelho. E tudo isso tem consequências. No vocabulário orwelliano de Ponte de Sor (não estou nem a brincar, nem a exagerar), “comunista” é a palavra que o ditador sempre usa para rotular todos os que se opõem ao BEM DA TERRA encarnado nele próprio.

Neste tipo de autarquias, a chamada síndrome de Estocolmo manifesta-se em toda a sua plenitude, designadamente no período eleitoral. Ou melhor, a síndrome de Estaline.

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2 comentários

De Rexistir a 26.09.2013 às 23:04

Cidadão Abt

Nós queixamo-nos da câmara de Abrantes mas Abrantes é um paraíso comparado com Ponte de Sor. Se lhe contasse certas coisas, pensava que eu estaria a exagerar ou a brincar. Mas se ler a parte final das duas actas, basta clicar sobre as datas, fica com uma ideia.

Santana Maia

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