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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Santana Maia - in Nova Aliança

 

É chegada a altura de enaltecer a extraordinária capacidade de previsão de José Miguel Júdice, o novo ideólogo de esquerda pós-socialista, que, há cerca de um ano, garantia, no Público, que a esquerda europeia iria governar por muitos e bons anos, uma vez que se tornara no partido natural de Governo. E por que razão isso sucedia? (Não sucedia, obviamente. Basta ter em conta que o Parlamento Europeu era dominado, na altura, pelo PPE e que os dois países líderes da Europa, Alemanha e França, eram governados pela direita. Mas faça-se de conta que sucedia.) Porque os homens de esquerda «já não se consideram socialistas, acreditam na economia de mercado, são conservadores em matéria de costumes, abominam as nacionalizações e não prometem no futuro a sociedade sem classes, cultivam os ricos, apoiam o investimento dos grupos económicos, defendem valores patrióticos, são duros em matéria de segurança, investem nas forças armadas». Resumindo: a esquerda europeia está a tornar-se o partido natural de Governo porque se apropriou do programa da direita e se desfez do seu programa socialista do qual só aproveitou a atraente capa de esquerda.
 
Em face desta apropriação (ou expropriação?) socialista, o que restava à direita? Provavelmente, fazer como José Júdice que, em 1972, como ele próprio confessava no seu artigo, defendeu «em público, à direita, a nacionalização da banca e dos seguros e a reforma agrária sem indemnizações».
 
Só que as coisas, felizmente, não são, nem eram, nem vieram a ser, como José Júdice gostaria que fossem. Mas eu compreendo muito bem a sua argumentação e o motivo por que os grandes grupos económicos e os grandes interesses financeiros estavam tão encantados com esta súbita conversão da esquerda ao capitalismo (selvagem).
 
Na direita, até à queda do muro de Berlim, coexistiram dois grandes grupos, ambos defensores da economia de mercado e unidos, estrategicamente, na luta contra a esquerda: a chamada “direita dos valores” e a “direita dos interesses”. A “direita dos valores” é constituída por todos aqueles (conservadores e liberais) que acreditam que o capitalismo é, com todas as suas imperfeições, o sistema económico e político que garante uma sociedade mais livre, mais justa e mais humana; a “direita dos interesses”, por outro lado, é constituída pelos grandes grupos económicos e financeiros, para quem os melhores sistemas económicos e políticos são, obviamente, aqueles que lhes proporcionem maiores lucros.
 
Ora, foi precisamente a “direita dos interesses” que acolheu de braços abertos a esquerda desiludida com o socialismo, porque tinha a perfeita consciência de que a melhor forma de fazer passar as medidas que defendem os seus interesses é embrulhá-las numa capa de esquerda. E se não há maior devasso do que um ex-moralista, também não há ninguém que defenda melhor os grandes grupos económicos e os grandes interesses financeiros do que um ex-socialista.
 
Morto o socialismo, foi um ar enquanto a “direita dos interesses” passou a vestir roupas da esquerda. E é, precisamente, esta “direita dos interesses” que é hoje a tal esquerda moderna de que falam José Sócrates e José Miguel Júdice, que já não é socialista, cultiva os ricos e apoia o investimento dos grupos económicos.
 
E é precisamente desta “direita dos interesses” que José Sócrates e o PS estão, hoje, reféns. Só que engana-se quem pensa que “a direita dos interesses” vai para o fundo com Sócrates. Ao contrário de Sócrates, “a direita dos interesses” sabe nadar.

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