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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Manuel Carvalho - Público de 2-11-2014

(...) Se o primeiro-ministro protesta em bruto contra a preguiça dos jornalistas, a ministra da Justiça é mais sibilina e reclama a “diminuição da criatividade” em torno do inenarrável processo do Citius. Um pouco mais de pudor deveria levar Paula Teixeira da Cruz a não mencionar a palavra “criatividade” numa história que agora vai a caminho dos filmes da série B, onde não faltam sequer suspeitos de sabotagem; um pouco mais de realismo levaria a ministra da Justiça a admitir que tudo aconteceu por gritante incompetência e voluntarismo e não por se ter mexido em “interesses” que usam “qualquer pretexto” para “criar um imenso ruido” – como se sabe, os “poderosos” interesses afrontados foram, na maior parte das vezes, os pobres portugueses do interior aos quais o Estado retirou mais um direito básico da cidadania; e, finalmente, um pouco mais de respeito pelo dever e pela imagem do Estado deveria ter motivado a ministra a demitir-se por ser a responsável política que pôs a Justiça em estado de sítio durante semanas.

Mas não, num exemplo acabado de autismo ou de paranóia estalinista, Paula Teixeira da Silva manda os Beria do seu KGB político procurar responsáveis pelo colapso da plataforma informática. Tenham medo, tenham muito medo que esta pulsão primária pela expiação de culpas próprias nos comportamentos alheios ainda há-de encontrar uma vírgula não reportada ou um gigabit não contabilizado para justificar o que aconteceu. Com a onda de lama a enxovalhar (sem que se possa afirmar que houve intencionalidade de alguém) a procuradora Maria José Morgado, com a investigação a cargo da unidade de cibercrime da PGR, a ministra da Justiça pode ganhar tempo com o relatório que enviou para se averiguarem as tais sabotagens da autoria de dois técnicos destacados da Polícia Judiciária.

Até que o inquérito se conclua, fica no ar a dúvida sobre se a ministra foi vítima de um crime. No Ministério pode respirar-se de alívio. Já há putativos bodes expiatórios. E não faltarão fugas de informação e outras manobras para escamotear uma realidade simples: o Governo gerou o caos na Justiça na sequência de uma reforma precipitada e mal gerida. Como se lia no editorial do Expresso, “dia 1 de Setembro havia processos desaparecidos, dia 1 de Novembro há cabeças perdidas”. E muita “criatividade”.