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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Francisco Assis - Público de 11-12-2014

(...) Será verdade que toda a direita democrática europeia se deixou, em absoluto, seduzir pelo pensamento neoliberal revelando-se incapaz da menor abertura para com qualquer tipo de preocupação de natureza social? Não o creio.

Esta semana a revista francesa Le Point publica um pequeno dossier subordinado ao tema “Algumas ideias para a direita”. Nesse âmbito são ouvidas três personalidades: Jean-Louis Bourlanges, um dirigente político oriundo do centrismo; Jean d’Ormesson, velha figura tutelar da direita gaulesa; e Roger Scruton, um pensador britânico que acabou de publicar um livro sugestivamente intitulado How To Be a Conservative.

Curiosamente, nenhum deles preconiza a adopção de uma linha de orientação neoliberal. Jean d’Ormesson defende mesmo a perspectiva de conciliação de uma política liberal com o recurso a medidas de natureza ultra-social considerando imprescindível a compreensão dos novos movimentos sociais e um reconhecimento acrescido dos direitos dos trabalhadores. O britânico Scruton, por sua vez, contesta o liberalismo thatcheriano opondo-lhe a ideia de um mercado devidamente temperado por instituições portadoras de uma vocação democrática e social. Já Jean-Louis Bourlanges, numa perspectiva completamente distinta  mas ainda assim dotada de grande relevância para a sustentação da tese que seguidamente explicitarei considera que a grande clivagem actualmente existente na sociedade francesa é aquela que separa os defensores do euro dos seus críticos radicais.

Como se pode verificar, nenhum deles revela uma acrisolada reverência pelo discurso neoliberal. Isso não é de espantar. Só uma direita liberal e democrática movida por um verdadeiro impulso suicida poderia ignorar o risco de surgimento de uma alternativa extremista no seu próprio seio, capaz de cavalgar as desilusões provocadas por uma sociedade desigual e geradora de situações de autêntica desintegração social. Os franceses percebem isso melhor do que os outros pela simples razão de que estão confrontados com a ascensão eleitoral, quase vertiginosa, de uma extrema-direita nacionalista, proteccionista, anti-liberal e marcadamente social.

A tese de que o neoliberalismo vai dominar nos próximos anos o pensamento e o discurso da direita democrática europeia não faz, a meu ver, qualquer sentido. (...)