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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Cândido Ferreira

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O ideário socialista nasceu no séc. XIX, como resposta às injustiças que se abatiam sobre as sociedades primitivas, com o homem a não passar de “lobo do homem” e legiões de miseráveis a servirem uns tantos privilegiados.

Duas grandes tendências se organizaram então no seio do “movimento operário”: a social-democrata, de que Bernstein foi o principal teórico, que entendia a liberdade como um direito natural e que apenas pretendia humanizar o sistema capitalista, sem pôr em causa a existência de classes sociais; e a comunista, alicerçada no “materialismo dialéctico”, com Marx a defender a rotura com o capitalismo, através de uma revolução que pudesse abrir caminho a uma sociedade sem classes, recorrendo para isso à apropriação dos meios de produção, pelo Estado.  

Contrariamente ao que Marx idealizou, a primeira experiência socialista não surgiu num país de vanguarda, mas sim na Rússia feudal, tendo aí sido desencadeada a célebre “separação das águas”, por força de Lenine, clivagem entre as duas tendências socialistas dominantes e que ainda hoje marca dramaticamente a esquerda portuguesa.

Enquanto as ideias socialistas mais extremadas se substituíam às religiões, e iam alimentando paixões e causando milhões de mortes em todo o mundo, assistiu-se durante anos a um desagregar da social-democracia, que só a partir de 1945 se instalaria, em Inglaterra. Espalhada a outros países do Europa do Norte, onde ganhou sucessivas eleições, é nesta região que o socialismo democrático se desenvolveu e conseguiu progressos incríveis, tendo diminuído o fosso entre ricos e pobres e criado “estados sociais”, que estenderam direitos antes considerados impensáveis a milhões de seres humanos, um pouco por todo o planeta, através de avanços económicos e sociais sem precedentes na História Universal.

Uma geração traz sempre no ventre uma outra de sinal contrário, e naturalmente esta ideologia igualitária acabaria por perder gás a partir dos anos setenta, do século passado: enquanto as experiências comunistas implodiam, sem reforma possível, também no Ocidente se assistiu a uma reacção da classe média face à extensão progressiva de “direitos” aos mais pobres, à custa dos contribuintes. Com a riqueza produzida a entrar em estagnação, o que limitava a sua redistribuição e os programas de combate à exclusão social, o poder político foi sendo tomado pelos partidos de direita que prometiam pôr travão no alargamento de direitos às classes mais desfavorecidas. Incapaz de responder a esse crescente desafio, até mesmo a doutrina social da Igreja acabaria por soçobrar, cedendo perante as correntes liberais, cuja lógica do lucro a todo o custo depressa se espalhou à escala universal.

Preocupados com esta perda de influência, que ameaçava os estados sociais e os direitos conquistados, os teóricos da social-democracia ainda procuraram rever as suas teorias, limitando alguns direitos das classes trabalhadoras e os custos do Estado Social e entrando naquilo a que, nos anos noventa, se chamou “terceira via”. Opção que apenas travou a inversão do processo e adiou por alguns anos os problemas do mundo actual, dominado por um capitalismo desenfreado que, com a conivência de políticos sem alma, se firmou na concentração de imensos recursos financeiros à escala global. Uma ameaça crescente que parecia impossível há trinta anos e que degrada progressivamente as condições dos trabalhadores e as aspirações da classe média, igualmente indefesa perante esta ofensiva sem precedentes do capitalismo selvagem. 

Nos últimos quarenta anos, a Europa foi maioritariamente governada pelas forças de direita, liberais e conservadoras, que abriram caminho a um sistema financeiro insolvente, que viveu muito acima da sua produtividade económica e que conduziu o sistema bancário ao caos e à bancarrota. O “capitalismo democrático” cedeu clamorosamente a este descontrolo neo-liberal, rasgando-se assim uma enorme clareira para a democracia e para o socialismo, até porque hoje já ressalta como muito clara a superioridade histórica e moral do sistema socialista em matéria de direitos sociais e de desenvolvimento sustentado da Humanidade.

Mas como combater este monstro que ainda domina o mundo de hoje, se a esquerda portuguesa se encontra sem voz na Europa e no mundo, sem capacidade para reagir, sem alma nem rosto, nem liderança, pulverizada em múltiplas “seitas”, espartilhada por preconceitos ideológicos e verberando divergências? Esta nova fase do capitalismo, que vai contra toda a moral e lógica, irá certamente promover uma aliança futura entre uma classe média em crise acelerada e as classes mais desfavorecidas, abrindo caminho a uma geração mais pragmática que certamente porá de lado discussões estéreis, e alguns interesses corporativos ainda prevalentes no seu seio, para ditar novas regras. Enquanto isso, e sem um programa comum da acção, ou sequer a mobilização popular em torno de objectivos comuns, restará que a esquerda se reforce em torno de uma Presidência da República que restitua a dignidade perdida à Instituição e que promova a reconciliação e a unidade entre famílias desavindas, a única forma de se reequilibrarem os poderes actuais e de se abrir caminho a uma nova era, mais justa, mais humana e mais solidária.