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COLUNA VERTICAL



Sábado, 31.01.15

A estupidez à solta

Vasco Pulido Valente - Público de 31-1-2015

Dezenas de analfabetos que gostam de se dar ares fizeram um escândalo com o aparente excesso de erros de ortografia, pontuação e sintaxe dos 2490 professores que se apresentaram à “Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades” (PACC). Deus lhes dê juízo.

Para começar, não há em Portugal uma ortografia estabelecida pelo uso ou pela autoridade. Antes do acordo com o Brasil – um inqualificável gesto de servilismo e de ganância –, já era tudo uma confusão. Hoje, mesmo nos jornais, muita gente se sente obrigada a declarar que espécie de ortografia escolheu. Pior ainda, as regras de pontuação e de sintaxe variam de tal maneira que se tornaram largamente arbitrárias. Já para não falar na redundância e na impropriedade da língua pública que por aí se usa, nas legendas da televisão, que transformaram o português numa caricatura de si próprio; ou na importação sistemática de anglicismos, derivados do “baixo” inglês da economia e de Bruxelas.

De qualquer maneira, a pergunta da PACC em que os professores mais falharam acabou por ser a seguinte: “O seleccionador nacional convocou 17 jogadores para o próximo jogo de futebol (para que seria?). Destes 17 jogadores, 6 ficarão no banco como suplentes. Supondo que o seleccionador pode escolher os seis suplentes sem qualquer critério que restrinja a sua escolha, poderemos afirmar que o número de grupos diferentes de jogadores suplentes (é inferior, superior ou igual) ao número de grupos diferentes de jogadores efectivos.” Excepto se a palavra “grupo” designar um conceito matemático universalmente conhecido, a pergunta não faz sentido. Grupos de quê? De jogadores de ataque, de médios, de defesas? Grupos dos que jogam no estrangeiro e dos que, por acaso, jogam aqui? Não se sabe e não existe maneira de descobrir ou de responder. O dr. Crato perdeu a cabeça.

Na terceira pergunta em que os professores mais falharam, o dr. Crato agarrou nas considerações tristemente acéfalas de um cavalheiro americano sobre “impressão e fabrico” de livros. Esse cavalheiro pensa que há “livros em que a beleza é um desiderato” (ou seja, a beleza do objecto) e outros “em que o encanto não é factor de importância material” (em inglês, “material” não significa o que o autor da PACC manifestamente julga). E o homenzinho acrescenta pressurosamente: “Quando tentamos uma classificação, a distinção parece assentar entre uma obra útil e uma obra de arte literária”. A obra de arte pede beleza ao tipógrafo (ao tipógrafo?), a obra útil só pede “legibilidade e comodidade de consulta”. Perante este extraordinário cretinismo, a PACC exige que os professores digam se o “excerto” “ilustra” os dois termos de uma comparação, o primeiro, o segundo ou nenhum deles. Uma pessoa pasma como indivíduos com tão pouca educação e tão pouca inteligência se atrevem a “avaliar” alguém.

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4 comentários

De João Manuel Maia Alves a 01.02.2015 às 17:50

Se tivesse de classificar Pacheco Pereira pelo que tem escrito sobre ortografia, não tinha adjetivos suficientemente desqualificativos para lhe aplicar. Ele nem se apercebe da tristíssima figura que faz perante pessoas minimente informadas. Estou a falar só de ortografia, note-se bem.

É triste dizê-lo, mas as ideias mais absurdas, mais cretinas, mais insensatas que li ou ouvi até hoje não provieram de pessoas simples, com pouca cultura, mas sim de intelectuais.

J. Maia Alves

De Rexistir a 02.02.2015 às 02:26

João Maia Alves

O texto é de Vasco Pulido Valente. E Vasco Pulido Valente escre muito bem.

Santana Maia

De João Manuel Maia Alves a 02.02.2015 às 07:28

Peço desculpa da confusão. Quando começamos a usar óculos, parece-nos ler uma coisa e outra está escrita.

J. Maia Alves

De Rexistir a 02.02.2015 às 19:30

João Maia Alves

Não tem de pedir desculpa. Cada um tem o direito a dizer o quer quer e a errar.

Santana Maia

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