Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Pedro Afonso - Público de 5-5-2015

O actual Governo alterou o horário de trabalho na função pública das 35 para as 40 horas semanais. Já com a troika ausente do nosso país, resiste em repor o horário anterior, alegando que este alargamento aumenta a produtividade, reduz custos (por exemplo, no pagamento das horas extraordinárias) e acaba por ser uma medida justa, já que equipara o horário de trabalho do sector público ao do sector privado.

Esta medida constitui um erro político pelas razões que passarei a expor. Em primeiro lugar, subsiste, em muitos políticos e empresários, a crença errada de que presença prolongada no local de trabalho é sinónimo de maior produtividade e compromisso laboral. Esta ideia é falsa. A produtividade cai inevitavelmente com o cansaço, pois a nossa capacidade de concentração é limitada e o nosso organismo não é propriamente uma máquina que se programa de acordo com as conveniências. Além disso, quando se insiste em prolongar demasiado as horas de trabalho, os erros aumentam e o preço a pagar na nossa saúde é elevado. 

Actualmente, na nossa sociedade, vivemos um curioso paradoxo: apesar de terem sido criados inúmeros meios tecnológicos para nos facilitarem a vida, tudo parece mais difícil e o ritmo do dia-a-dia não pára de aumentar. (...)

Umas das consequências de ter um horário excessivamente alargado é o aumento de risco para o burnout. Esta síndrome poderá ser definida como uma reação emocional crónica caracterizada pela desmotivação, desinteresse, e um mal-estar geral na relação com o trabalho. Nestes caso, o desejo de abandonar o emprego transforma-se num pensamento constante, a produtividade diminui e o absentismo aumenta. Com o tempo podem surgir perturbações depressivas e de ansiedade, abuso de álcool, etc. (...)

O nosso país precisa urgentemente de tomar medidas que aumentem a natalidade. Mas isso não se faz apenas com benefícios fiscais, nem com mais um subsídio ou abono de família. Já há muito tempo que se sabe que a qualidade de vida, a produtividade e o desejo de ter filhos está associado à possibilidade de conciliar o trabalho e a família. Manter, obstinadamente, o horário de trabalho nas 40 horas semanais, seja no sector público ou no privado, e impedir uma adequada flexibilidade da jornada laboral, é uma medida antinatalidade. (...)

O trabalho excessivo pode-se tornar numa “sanguessuga”, pois vai-nos roubando o tempo, a nossa energia, a nossa saúde, os nossos amigos e a nossa família, deixando-nos isolados e mais infelizes. Há que pôr fim à idolatria das 40 horas de trabalho semanais. Considero que um país desenvolvido e produtivo tem que ter a ambição de pensar nas pessoas, oferecendo-lhes tempo para viver. Todos teríamos a ganhar se o horário de trabalho fosse reduzido e flexibilizado. (...)