Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

João Miguel Tavares - Público de 21-10-2014

(...) Até porque não sou eu que o digo: são os números do Orçamento do Estado. Depois de quatro orçamentos e muitos rectificativos, o peso da despesa pública em função do PIB não se moveu um milímetro. Aquilo que foi poupado em despesas com funcionários foi engolido pela Segurança Social, e os ganhos conseguidos na diminuição do défice do Estado devem-se ao decréscimo do investimento público e, sobretudo, ao enorme aumento da receita fiscal – essa medida neoliberal por excelência. O Governo colocou travão no défice? Sim, colocou, mas nunca conseguiu ter mão na despesa, em parte porque o Tribunal Constitucional não deixou, em parte porque nunca chegou realmente a tentar. Ora, neste contexto, falar em “destruição do Estado” é uma asserção do domínio da comédia, que nenhum número objectivo consegue sustentar. É como queixarmo-nos de um assalto que deixou o cofre mais cheio.

Convinha, portanto, que parassem de nos atirar areia para os olhos: a narrativa que foi sendo construída e instituída ao longo destes últimos anos pura e simplesmente não cola com a realidade – e isso é o mais frustrante na situação política actual. Quem advoga que é preciso uma diminuição efectiva do peso do Estado na economia portuguesa tem gramado com três anos e meio de fama e nem um segundo de proveito. Isto é a parábola do rei vai nu, mas vista do avesso: temos a esquerda (e parte da direita) a gritar em coro que à frente dos seus olhos desfila um Estado pobre, roto e em pelota, quando os números e as estatísticas demonstram que ele continua de capote, samarra e gibão.

O maior problema do Orçamento do Estado para 2015 não é, pois, o aumento da carga fiscal na era pós-troika. O maior problema é ele ser um terrível espelho da nossa paralisia política, em que uns prometem o que não fazem, e outros vêem o que não existe.