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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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15 Ago, 2020

A Lolita

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Todos os cães que tive, e já foram muitos, tem uma história, mas nenhum deles teve preço. Quem nunca se vendeu também não gosta de comprar.

Eu sei que hoje toda a gente gosta de programar a sua vida desde o nascimento do filho até à escolha da raça do animal de companhia.

Mas eu nunca fui racista, nem garota de programa. É certo que fui sempre eu que escolhi os caminhos que trilhei, mas as minhas escolhas foram sempre feitas em cima da hora e, quase sempre, em cima do joelho. Basta dizer que, quando me fui matricular no Liceu de Portalegre, no meu 6.ºano de escolaridade (hoje, equivalente ao 10.º ano), saí de casa com o objectivo de me matricular em Ciências, em virtude de as disciplinas onde eu era melhor aluno serem Matemática, Ciências e Física-Química, e vim de lá matriculado em Letras. E porquê? Porque, no preciso momento em que me ia matricular, senti nascer, em mim, uma irresistìvel vocação para as Letras, sobretudo quando constatei que os alunos de Ciências tinham um horário de 25 horas lectivas e os de Letras um horário de apenas 19 horas.

Também nunca fui de escolher as minhas companhias. Todas elas foram-me saltando ao caminho como os cães, se bem que dos cães nunca tive razão de queixa…

E foi assim que conheci a Lolita, uma setter irlandesa, muito bonita e muito querida, mas que, como tantas vezes acontece, não era nada fotogénica. Não tenho uma única foto em que a Lolita não ficasse desfavorecida. Por mais que se arranjasse, penteasse, se visse ao espelho, escolhesse a pose… nunca ficava bem na fotografia.

Vim a saber, um mês mais tarde, pela boca do seu dono (um caçador que a tinha comprado por cem euros para a caça) que, naquele dia de Fevereiro de 2002 em que a Lolita me apareceu no monte, tinha ido dar uma volta com ela ao campo para testar os seus dotes de caçadora. Só que a Lolita era uma daquelas raparigas modernas que nasceu para viver na cidade e dormir até tarde e não para andar a bater mato, de madrugada, na companhia de gente armada em soldado e com a barba por fazer....  E mal apanhou oportunidade foi ter comigo ao monte e pediu-me boleia para a cidade.

A Lolita era tão bonita e tão meiga que os meus filhos apaixonaram-se, de imediato, por ela. E ela não se fazia rogada, passando a vida no sofá deitada em cima de quem lá estivesse sentado.

Passado um mês deste doce enleio, o dono da Lolita, tendo sabido que eu tinha encontrado a cadela, veio a minha casa agradecer-me por ter cuidado dela e para a levar. Só que, quando chegou à sala, não teve coragem de a levar perante o cenário de tragédia clássica com que se deparou. Os meus filhos, agarrados à cadela (que também não queria ir), choravam desalmadamente e num tal desespero que até a minha mulher já fazia coro, na choradeira.

É melhor fazermos assim, disse-me o caçador: o senhor compra-me outro cão idêntico e fica com a Lolita. E assim foi. Comprei-lhe o cão, mas nunca o vi, nem quis ver, para não correr o risco de vir a ficar também com ele. Gato escaldado…

A Lolita foi a primeira cadela que tive e toda a gente gostava dela. Aliás, era impossível não gostar de uma cadela tão bonita, tão meiga e tão carinhosa. Até o Calvin, um podengo formado na universidade da vida e muito cioso das suas coisas e do seu território, se comportava com a Lolita como um verdadeiro gentleman, chegando a ceder-lhe o seu lugar no sofá para ela se sentar.

Quando o Calvin faleceu no dia 30 de Abril de 2008, fazendo-nos viver a primeira e dolorosa experiência de ver partir um ente familiar de quatro patas, pensámos que tão depressa não íamos voltar a passar pelo mesmo, tendo em conta a idade dos outros cães. E a Lolita, com apenas seis anos, estava no fim da lista.

Acontece que, pouco tempo após o Calvin falecer, ou seja, quando a Lolita estava na flor da idade, apareceu-lhe aquela maldita doença que afecta tantas mulheres: um tumor nas mamas. Foi operada por uma médica veterinária em quem depositávamos muita confiança e ficámos esperançados de que o problema tivesse sido descoberto a tempo e ficasse resolvido. Não ficou. Passado uns meses, o maldito tumor voltou a aparecer e a ramificar-se.

Hoje, quando penso na Lolita, lembro-me sempre da minha sobrinha que, com apenas 35 anos e pouco depois de ter tido a suprema alegria de ver nascer a sua filha... Maldita doença!

No dia 15 de Agosto de 2009, tive de chamar o veterinário a minha casa porque a Lolita permanecia deitada e já não se conseguir levantar. E, na verdade, já não havia nada a fazer. Fiz-lhe umas festas na cabeça, enquanto ela olhava fixamente para mim com aquele olhar de despedida que nos entra pela alma dentro e fica guardado para sempre dentro de nós. O mesmo olhar que voltei a ver nos olhos da minha sobrinha no último dia em que a vi no Porto. Aquele olhar sereno, eterno e penetrante que ambos sabíamos que era o último.

Santana-Maia Leonardo

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