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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

João Miguel Tavares - Público de 22-1-2015

(...) Eu fui um furioso opositor de Santana Lopes, e depois do seu espectacular desastre enquanto primeiro-ministro, os dois primeiros anos do Governo de José Sócrates pareceram-me um oásis de competência e capacidade de liderança.

A minha atitude só começou a mudar com o acumular de casos, casinhos e casinhas, primeiro em 2007, com a questão da licenciatura, depois em 2008, com os projectos da Guarda, e finalmente no annus horribilis de 2009, com a casa da Braamcamp e as gravações do Freeport. Eram casos de gravidade muito diferente, mas denotavam um padrão – padrão esse que os portugueses manifestamente desvalorizaram, permitindo a Sócrates vencer as legislativas de Setembro de 2009. Quando nesse mesmo mês o Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes foi suspenso (estamos a falar em uma televisão privada decidir acabar com o seu jornal de maior audiência) e, no final desse ano, se começaram a conhecer os detalhes do Face Oculta, e me deparei com a forma como o país e as suas principais instituições reagiram a um caso daquela gravidade, todos os sinais de alarme dispararam na minha cabeça.

Aí, de facto, dividi Portugal em dois campos: de um lado, aqueles que percebiam o perigo que Sócrates representava para a salubridade do regime; do outro, aqueles que não percebiam. E neste “aqueles que não percebiam” incluo tanto os devotos mais assolapados do engenheiro como aqueles que, não sendo devotos, achavam – e muitos continuam a achar – que ele era apenas “mais um político”, torcendo o nariz a tanta gritaria à volta da sua figura. A minha alegada obsessão deriva daqui: da incapacidade que o país, como um todo, demonstrou para reagir a um primeiro-ministro com o perfil de José Sócrates, que debaixo do nosso nariz tentou controlar em meia dúzia de anos a política, a banca, a justiça e a comunicação social – e que esteve à beira de o conseguir, não fosse o Lehman Brothers ter feito o favor de desabar. (...)

E enquanto eu achar que não aprendemos nada de nada, permitam-me a indelicadeza de continuar a insistir na minha obsessão. Porque o problema não está em Sócrates – está no país que permitiu que ele fosse duas vezes primeiro-ministro.

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