Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

João Miguel Tavares - Público de 10-2-2015

Na entrevista que António Costa concedeu ao PÚBLICO, houve um infeliz momento de revisionismo histórico, ao qual não foi dado a devida atenção.

A certa altura, ao ser questionado acerca do problema da dívida privada, o líder do PS decidiu invocar o pensamento de Henry Ford: “Esta crise começou quando o capitalismo deixou de assentar numa ideia fundamental do senhor Ford: era necessário pagar a cada um dos seus operários o ordenado suficiente para que eles pudessem comprar os carros que ele produzia. E a partir do momento em que se considerou que não era necessário pagar a um operário o necessário para ele comprar os carros, não se deixou de fazer carros, a mudança foi dizer basta-me pagar o suficiente para ele pagar a prestação do crédito que pediu para comprar o carro.

Ora, uma coisa é António Costa não se querer comprometer com as soluções que tem para o país, porque acha que ainda não é altura para isso – outra, muito diferente, é andar a sulfatar os jornais com uma demagogia ao nível do jardim-escola. Esta sua análise do problema da dívida privada, em que se insinua que o mundo era um lugar mais decente e justo em 1915 e se sugere que convém aumentar ordenados independentemente da produtividade que eles geram, é patética. (...)

Isto não é um pormenor de somenos, nem um exemplo meramente infeliz de António Costa. Muito boa gente à esquerda anda entretida a reescrever a História e a manipular a memória, querendo convencer-nos de que houve um tempo em que a vida era bastante mais fácil e o capitalismo um sistema muito amigo do trabalhador. Em vez de se prometerem amanhãs que cantam, inventam-se ontens que cantaram. Se Costa quisesse combater com firmeza a desigualdade e o capitalismo de compadrio, eu estaria com ele – essas são, sem dúvida, lutas fundamentais do nosso tempo. Mas o problema é que, em simultâneo, a agenda socialista continua a promover uma absurda narrativa da crise, em que o trabalhador de 2015 até já perde em privilégios para o trabalhador de 1915. Para o PS, não basta que tenhamos regredido dez anos – é preciso fingir que regredimos 100. Não basta tentar corrigir a realidade que existe – é preciso inventar uma realidade que nunca existiu. Caro António Costa: assim não dá.