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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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20 Jan, 2015

Charlie e eu

P. Gonçalo Portocarrero de Almada - Observador de 17-1-2015

Logo após os atentados contra o Charlie Hebdo, muitos franceses tomaram a peito a agressão e ergueram a sua voz num único grito: Eu sou Charlie! Contudo, algumas pessoas mais escrupulosas, não só não assumiram essa identidade, que entenderam incompatível com as suas convicções morais e religiosas, como fizeram gala em proclamar a sua contrária: Eu não sou Charlie! (...)

Quem só se revê nos que pensam do mesmo modo, não ama a liberdade, porque a reduz a um reflexo narcisista da sua própria vontade. Os ditadores também actuam politicamente em função deste enviesamento da liberdade e, por isso, consideram como traidores todos os que não se identificam com a sua ideologia. A cultura da liberdade e da democracia afere-se pela aceitação do outro na sua diferença política, cultural, religiosa e social, sobretudo quando contradiz o que pensamos e somos.

Não sou Charlie, porque não me revejo no seu posicionamento ideológico, na sua intolerância, nem na sua agressividade verbal contra a liberdade religiosa. Não subscrevo o seu fanatismo laicista, nem me agrada a sua linguagem abjecta. (...) Porém, não posso ignorar que doze homens perderam a vida num infame atentado. Não me compete ajuizar se os caídos eram santos ou pecadores; basta-me saber que eram seres humanos e, portanto, meus irmãos. E que foram traiçoeiramente assassinados.

Se amanhã alguém metralhar uma sinagoga judia, eu serei, com eles e por eles, judeu. Se uma milícia massacrar os alunos de uma escola palestiniana, norte-americana ou paquistanesa, eu serei um desses estudantes. Se algum fanático matar, em nome de qualquer ideologia ou religião, uma prostituta, um toxicodependente, um sem-abrigo, um travesti, um pagão ou um fiel de outra religião, eu serei tudo isso, sem deixar de ser cristão.

O que diferencia um cristão de um terrorista muçulmano não é que nós somos bons e eles são maus. Isso é o que, pelo contrário, nos assemelha porque, para eles, também nós somos os maus e eles são os bons. E há cristãos maus e bons muçulmanos. O que distingue o autêntico cristão dos terroristas, islâmicos ou não, é que eles são capazes de matar todos os que não pensam do mesmo modo, mesmo sendo seus irmãos na fé em Alá e no seu profeta, enquanto qualquer cristão deve estar disposto a morrer pela liberdade das consciências de todos os homens, sem excluir a de aqueles que o querem matar. Nem sempre foi assim, é certo, mas quero crer que já aprendemos essa lição.

É só isto e nada mais. Não faço minhas as declarações dos católicos que, por se considerarem justos, dão graças a Deus por … não serem Charlie. Eu também não o sou, mas estaria disposto a sê-lo, para defender a liberdade das vítimas, sejam ou não mártires. Não apesar de ser cristão mas, precisamente, porque o sou.