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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

José Pacheco Pereira - Público de 14-3-2015

Estamos pior em 2015 do que estávamos em 2011? A pergunta não pode ser colocada assim. É como aquelas perguntas sobre o que é que existia antes de haver o universo, que diferenciam o tempo do espaço, ou seja, podem ser boa psicologia, mas são má física.

A pergunta sobre se estamos pior ou melhor em 2015 do que em 2011 faz uma coisa semelhante: considera que a comparação se pode fazer a partir de realidades semelhantes e, na prática, usa as condições de 2011 para as comparar com as de 2015 e não ao contrário. Não sai de 2011, o que é compreensível, porque muito do que era mau em 2011 não foi mudado e muito do que é mau em 2015 é incómodo de comparar. (...)

Em 2011, Portugal conheceu uma grave crise financeira, ficando a um passo da bancarrota. Em 2015, Portugal conhece uma grave crise económica, social, política e moral, sem ter resolvido a sua crise financeira. A bonança dos juros é internacional e conjuntural, pode acabar amanhã. E tudo desaba como um castelo de cartas, porque não houve qualquer transformação estrutural da economia portuguesa. Pelo contrário, houve destruição dos factores “económicos” da sociedade com a devastação da classe média.

Os factores de crise estão indissoluvelmente ligados de 2011 a 2015, mas as crises só aparentemente são da mesma natureza e têm o mesmo “tempo”. A crise de 2011 era apocalíptica, ameaçava o país em poucos dias, marcava um ponto sem retorno que podíamos ter atingido no dia de amanhã. Era uma crise que não podia durar, tinha que ter uma solução imediata e essa urgência facilitava a sua resolução. A crise de 2011 era profunda e grave, mas muito conjuntural, a crise de 2015 é profunda e grave e estrutural. A dimensão da crise de 2011 era aguda nas finanças públicas, mas era menos grave na economia, e poucos efeitos tinha na sociedade “civil”. A verdade é que podia ser defrontada com muito menos custos, muito mais competência e eficácia, se não fosse o carácter antidemocrático e “indigno” (Juncker) da política datroika, ampliada pela tentação do revolucionarismo social dos nossos marxistas “liberais” que queriam fazer um Portugal não-“piegas”. (...)

Em 2011, havia um maior consenso social de que a crise implicava passar por um momento difícil, ou seja, aceitava-se que alguma “austeridade” era inevitável, um acontecimento raríssimo em democracia; em 2015, não há terreno em democracia para se continuar a “austeridade” tal como a conhecemos. Em 2011, era possível conduzir políticas difíceis com alguma legitimidade popular, em 2015, essa legitimidade foi desbaratada pelo carácter socialmente injusto do “ajustamento”. (...)

Parte da crise de 2011 permanece, connosco, por resolver, mas parte da crise de 2015 é nova: resulta do modo como foi defrontada a crise de 2011. E como tudo podia ser feito de outra maneira, as suas consequências foram escolhidas, não estavam inscritas na natureza das coisas. Tiveram autores. Em 2011, Sócrates, em 2015, Passos e Portas. As opções da crise de 2015 foram escolhidas por dois factores: a ignorância e incompetência dos governantes que desconheciam o seu país, e pelas ideias erradas e simplistas que transportavam, de que o bom modelo para Portugal era Singapura ou a Coreia. Anote-se que também não sabem muito do que é Singapura e a Coreia.

Há, no entanto, uma diferença muito importante: em 2011, havia um maior número de possibilidades de acção, em 2015, há menos. Um dos aspectos cruciais em que estamos pior em 2015 é que a margem de manobra política é hoje muito menor, e, numa democracia, isso é pior do que não haver margem de manobra financeira. Só os marxistas “lusíadas” que nos governam é que acreditam piamente na determinação da superstrutura pela infra-estrutura, ou seja, acreditam que tudo se remete àquilo que eles pensam ser a “economia”. Pobre Marx, que tais discípulos deu e que pensam que são “liberais”! Perceberão a seu tempo que, nas democracias, a percepção da injustiça é mais poderosa do que a ideologia do “empreendedorismo”.

De facto, não há almoços grátis, a não ser para alguns.