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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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23 Nov, 2014

De Costa a Costa

Manuel Carvalho - Público de 16-11-2014

António Costa encerrou um tempo em que pouco disse para aparecer esta semana a mostrar que pouco quer dizer. Pelo menos sobre aquilo que muitos querem ouvir, como o corte dos salários da função pública, os impostos e a dívida. Fiel ao seu plano de contenção, Costa não anunciou o admirável Portugal novo. Tergiversou, adiou, dissimulou e baralhou. À primeira questão, os salários, respondeu esta semana numa entrevista à RTP que os devolverá por inteiro “tão cedo quanto possível”; para a segunda, prometeu que só haverá novidades por altura da Convenção Nacional do partido que vai aprovar o programa de Governo, lá para a Primavera; e sobre a terceira anunciou que aguarda uma “solução técnica” antes de tomar posição – como se uma decisão sobre a dívida fosse um problema matemático em vez de uma opção política. Baralhando e dando de novo, António Costa não disse nada de concreto. Mas ao fazê-lo acabou por dizer muita coisa.

Em primeiro lugar desfez a imagem do candidato a primeiro-ministro concentrado em demolir as bases da actual governação. A austeridade veio para ficar, até com o PS. (...) Guardando na manga as divulgações incómodas, António Costa ficou com margem de manobra para manter o sequestro dos salários, para conservar a “enorme carga fiscal” e para nada decidir sobre o futuro da dívida. Ou seja, para preservar o essencial da política de Pedro Passos Coelho.

Não admira por isso que o teor da moção ao Congresso, ou a sua Agenda para a Década, tenham caído como um balde de água fria numa certa esquerda. Baptista-Bastos foi disso exemplo, ao escrever na sua coluna no Negócios que “Costa vive dentro do sistema, e o sistema é o que é, determinado pelos ‘mercados’, pelos grandes grupos económicos, e por manobras que têm como objectivo manter as coisas como estão”. Mas se a esquerda que acredita que as contas se ajustam ao livre arbítrio da vontade se desencantou, os que se lhe opõem rejubilaram com a chegada de novos trunfos para o criticar. Para eles, Costa, até agora demolido pelo suposto facilitismo, “já começou a recuar em questões como a reposição dos salários da função pública e outras promessas se esvaziarão com a suavidade própria dos vendedores de banha da cobra”, considera Manuel Falcão, também no Negócios.

A proximidade do poder tem destas coisas. Torna o exercício da responsabilidade mais exigente. Costa, cujo município cobra três vezes mais taxas que, por exemplo, o do Porto, pressente que vive o papel do revolucionário da “Engrenagem” de Sartre. (...)