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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

José Manuel Fernandes - Observador de 7-4-2015

(...) Houve mesmo alguns mistérios que não consegui esclarecer. Um deles foi por que razão iniciou Sampaio da Nóvoa o seu discurso no recente “Congresso da Cidadania” afirmando, e cito, que “devo a Abril tudo o que sou”. Tendo nascido em 1954, quando chegou a revolução estava nos 20 anos (e não nos 18, como refere em mais do que uma entrevista), e já estudava História. Não consegui encontrar qualquer referência a problemas com a polícia política e, sendo filho de um juiz e descendente de uma “família nobre”, com quintas, podia viver de forma austera mas não deixaria por certo de estudar por dificuldades económicas. Depois andou a fazer os seus doutoramentos (tem dois), passou muitos anos em universidades estrangeiras, e nunca foi, até se tornar reitor da Universidade de Lisboa (e, mais tarde, de discursar num 10 de Junho), um intelectual público presente nos debates nacionais. Ou seja, fiquei com a impressão de que só tinha dito que devia tudo “a Abril” para cair bem – e não há discurso que faça que, por assim dizer, não se destine a “cair bem”.

Fui relê-los. O exercício foi um pouco penoso, pois são pouco variados. Mas tinha de saber se lá estava a “visão para o país” com que tanta gente se diz identificar. Vou ser claro e sincero: não há nessas peças oratórias algo que, mesmo vagamente, se aproxime a uma visão para Portugal. Nem nelas, nem nas muitas entrevistas que também andei a ler ou a reler. Há apenas duas coisas: uma retórica cuidada mas vazia, e a repetição de que o nosso problema é a falta de investimento na educação (e, vá lá, a ligação entre a universidade e a sociedade). Pouco mais se consegue espremer. (...)

Vou ainda mais longe. Vi muita gente colocá-lo à esquerda do PS, uma espécie de radical de venerandas barbas brancas, mas nem isso encontrei ao ler os seus discursos. Claro que a retórica gongórica cria uma imagem radical e levanta as plateias, mas isso é pouco e mais latino-americano do que propriamente de esquerda. Essa parte é mesmo algo assustadora: não entendo como há tanta gente com vontade de dar uma carta-branca a alguém que não sabemos o que realmente pensa apenas porque nos inebria com discursos que, lidos e relidos, estão sobretudo cheios de lugares comuns.

Dificilmente encontraríamos alguém mais diferente de Sampaio da Nóvoa do que Henrique Neto. Em vez de descender de nobres, nasceu numa família operária. Aos 14 anos já era aprendiz numa fábrica, e naturalmente nunca se doutorou. Em vez disso fez-se industrial, criou empresas e postos de trabalho. E foi sempre curioso autodidata. Antes 25 de Abril, quando era perigoso ser da oposição, ele foi da única oposição que existia na Marinha Grande, o Partido Comunista, e por isso chegou a estar preso. Quando passou a ser fácil ser comunista, afastou-se. Mais tarde foi deputado socialista, mas quando o partido se dobrou à vontade de um só homem, José Sócrates, ele foi dos raríssimos que se distanciou e, com frontalidade, o denunciou e denunciou as suas políticas.

A sua retórica não é sofisticada, mas é afiada. As suas palavras vão directas aos alvos, até porque não tem dependências, a não ser as daquilo que é e que pensa. Não tendo repositório académico, tem um pequeno livro onde nos explica o que pensa para o país – Uma Estratégia para Portugal. Há lá muito mais ideias e muito mais “visão” do que em todos os discursos de Sampaio da Nóvoa. (...)