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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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Amartya Sen, vencedor do prémio Nobel da Economia, no seu livro "A Ideia de Justiça", através da parábola das "Três crianças e uma flauta", ajuda-nos a perceber como é possível coexistirem diferentes soluções justas para o mesmo problema que, inclusivamente, rivalizam entre si, sem que se possa colocar em causa a imparcialidade de quem as defende.

Imagine o leitor que existem três crianças, o José, o Manuel e o António que querem a mesma flauta e que caberá ao leitor a decisão.

Segundo o José, deveria ser ele a ficar com a flauta porque é o único que sabe tocar flauta. Sem ouvir os outros dois, parece, logo à partida, ser esta solução mais justa.

Por sua vez, o Manuel considera que a flauta deveria ficar para ele porque é o único dos três que é pobre e não tem qualquer brinquedo, sendo este o único brinquedo de que disporia para poder brincar, ao contrário dos outros. Colocada a questão desta forma, também parece ser esta uma solução igualmente justa.

Finalmente, defende o António que deveria ser ele a ficar com a flauta porque foi ele que a construiu, tendo levado vários meses a trabalhar, com as suas próprias mãos, para conseguir construir a flauta. Ou seja, analisando as três razões, chegamos forçosamente à conclusão que todas elas são defensáveis e igualmente justas, sendo muito difícil a decisão para uma pessoa imparcial e que queira ser justa.

 É precisamente aqui, no momento da decisão, que entra a perspectiva ideológica. O Manuel teria certamente o apoio daqueles que defendem a redução do fosso entre ricos e pobres (os igualitaristas económicos). Por sua vez, o António obteria o apoio dos libertários (sejam os liberais, sejam os socialistas que defendem o princípio "a cada um segundo o seu trabalho"). Finalmente, o José receberia certamente o apoio dos utilitaristas que valorizariam o facto de ser o único que sabia tocar flauta.

Razão tem Karl Popper quando afirma que "ninguém sabe o suficiente para ser intolerante". Mesmo quando nos parece que a nossa solução é a mais justa, temos de ter sempre a prudência para reconhecer que podem existir outras soluções igualmente justas e que divirjam da nossa, sem que os seus interlocutores estejam necessariamente de má fé ou sejam desonestos.

O direito à liberdade de expressão e de opinião é, por isso, a trave-mestra das sociedades abertas. Como escreveu Beatrice Hali, na biografia de Voltaire, «não concordo com o que dizes mas defenderei até à morte a liberdade de o dizeres.» Mas se queremos lutar por uma sociedade cada vez mais justa, não basta defender o direito à liberdade de expressão é necessário combater militantemente o unanimismo que caracteriza as sociedades fechadas, seguindo o conselho de Edmund Burke: «Quando a estabilidade do navio é colocada em perigo por um excesso de peso num dos seus lados, estou disposto a levar o pequeno peso que representam as minhas razões para o lado oposto a fim de tentar estabelecer o equilíbrio». E uma das características típicas das nossas instituições sempre foi o excesso de peso num dos seus lados. Não é, pois, de estranhar que estejam sempre a meter água e a ir ao fundo.

Santana-Maia Leonardo - Diário As Beiras de 31-10-2016