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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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No poema o “Poeta é um fingidor”, Fernando Pessoa explica o drama da escrita: o leitor lê no que o poeta escreveu uma “dor” (a dor lida) diferente das duas “dores” que o poeta sentiu (a dor sentida e a dor fingida).

Ora, tenho constatado, nalguns comentários aos meus posts, que algumas pessoas que me lêem extraem conclusões que os meus textos não permitem.

Por exemplo, Paulo Rodrigues ficou muito decepcionado por eu ser do Barça, quando presumia que eu defendesse que uma pessoa fosse apenas do clube da sua terra.

Ora, eu nunca defendi que uma pessoa tivesse de ser disto ou daquilo ou que tivesse de ser obrigatoriamente do clube da sua terra. Cada um tem o direito de ser do clube ou dos clubes que quiser e mudar de clube quando lhe apetecer ou, pura e simplesmente, não ser de clube nenhum.

Tomemos o meu caso como exemplo. Se uma pessoa deve torcer pelo clube da sua terra, era importante definir qual o critério para definir a terra de cada um.

A nossa terra é a terra onde nascemos? Devo desde já dizer que não valorizo muito este critério porque uma pessoa não escolhe o sítio onde nasceu e, para mim, qualquer escolha tem de ser sempre pessoal e consciente. Sou uma pessoa, não sou uma ovelha. Ponto final. Em todo o caso, seguindo este critério, eu teria de ser do Benfica ou do Sporting porque nasci em Lisboa e tenho casa na 2.ª Circular.

Ou a nossa terra é a terra onde vivemos? Neste caso, eu teria de ser de muitos clubes porque já vivi em Setúbal, Ponte de Sor, Abrantes, Nisa, Coimbra e Viseu. Espero não me ter esquecido de nenhuma terra.

Ou a nossa terra, tal como a mulher amada, é a terra que amamos e com a qual nos identificamos? Neste caso, só podia ser, neste momento, do Barcelona. Devo, desde já, dizer que este é o critério que sigo mas aceito que outros sigam critério diferente. Neste ponto, liberdade absoluta.

No entanto, o que eu defendo, quando me refiro à relação dos adeptos com os clubes e à organização do futebol português, é substancialmente diferente e tem a ver exclusivamente com a integridade das competições.

Vou tentar explicar com dois exemplos facilmente compreensíveis para quem não seja um batoteiro.

Uma competição entre clubes pressupõe a existência de clubes, sendo um clube uma associação de adeptos representativa de uma comunidade. Se um clube não tem adeptos ou a maioria dos adeptos torcem por outros clubes que disputam a mesma competição, isso desvirtua a competição e põe em causa a sua integridade.

Quem disputa uma competição não pode ter dois amores, nem desejar que vença outra equipa que não seja aquela que é a sua equipa ou aquela que representa.

Por outro lado, a integridade das competições exige que a todos os participantes sejam garantidas condições mínimas que lhe permitam poder disputá-la e com independência.

Ora, o que se passa em Portugal é que existem três clubes que se apropriam da totalidade das receitas que a competição produz, controlam todas as instituições e a comunicação social, obrigando todos os outros clubes a viverem na sua dependência e à sua sombra, o que desvirtua necessariamente a competição.

Sendo certo que o futebol português reproduz precisamente o que se passa em toda a organização social, a começar na escola onde aos alunos provenientes das classes sociais mais baixas não lhe são dadas as condições mínimas para poderem competir com os filhos das classes mais favorecidas, nem aos partidos da oposição nas autarquias lhe são dadas as condições mínimas para poderem exercer as suas funções com um mínimo de dignidade.

Santana-Maia Leonardo