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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Vale a pena reler um post que publiquei em 2014 e ler o livro quem ainda não leu.

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Extracto da entrevista de Duarte Branquinho a Paulo Pena 

Rui Pena - Temos o maior rácio (se exceptuarmos Malta, que é um caso à parte) de casas por habitante, cada português tem, em média, 1,5 casas. Temos um milhão de casas devolutas, temos fortunas criadas pela mudança no uso dos solos – e muitas dessas fortunas nascem da corrupção, sobretudo autárquica.

Duarte Branquinho - Não era suposto a supervisão bancária evitar situações destas?

Rui Pena - Para sermos justos, a supervisão preocupou-se com isso. Há relatórios do Banco de Portugal a avisar para tudo isto desde a entrada no Euro. A CMVM também teve um papel importante no mercado dos fundos imobiliários. Mas compensava pagar multas. Compensava ignorar os riscos, que eram evidentes. Enquanto o dinheiro entrasse na roda financeira, tudo estaria a funcionar bem. E mais tarde, alguém haveria de pagar a fatura. É o que nos está a acontecer. Eu tento, no livro, não escamotear o papel da supervisão, quando ela flagrantemente falhou. Mas não creio que possamos atribuir mais culpa aos reguladores que aos banqueiros. E há que ter em conta a cultura da época. Ninguém queria, ou defendia, uma regulação com mão pesada, na altura em que este problema começa, na década de 90 do século passado. A crença de que o mercado se auto-regulava era papagueada por quase todos os quadrantes políticos. Houve, como diz Joseph Stiglitz, uma captura da política pela finança.

Duarte Branquinho - É realmente possível evitar a promiscuidade entre decisores políticos, banqueiros e construtores? As nomeações para altos cargos políticos e bancários mostram que a banca continua a dominar a política?

Rui Pena - Sim, creio que é possível evitar essa promiscuidade. No livro dou o exemplo da Islândia, que o tentou fazer. Em Portugal, onde centenas de governantes trabalham ou trabalharam no sector financeiro, isso é mais difícil. Banca e política confundem-se, muitas vezes. Em 19 ministros das Finanças, 14 trabalharam na finança. Os últimos governadores do Banco de Portugal, desde os anos 80, pelo menos, têm passagens pela política e pela banca privada. Num dos Governos de Cavaco Silva, a maioria dos ministros e secretários de Estado, repito, a maioria, acabou por trabalhar no sector financeiro. Isto já não é, apenas, uma coincidência, ou sequer uma promiscuidade, isto é uma coisa diferente, é uma nova classe social, os políticos co-financeiros. É aquilo que chamo no livro de “bancracia”, o sistema de dominação em que o poder está na banca. E também é por isso que hoje temos austeridade, porque a crise tinha de ser paga, e não iam ser os responsáveis, o sector financeiro, a arcar com as responsabilidades. E é isso que, como procuro debater no livro, está a pôr em risco a própria ideia de democracia. É também por isso que os cidadãos descreem, cada vez mais, da própria política.

Duarte Branquinho - Mas os bancos só sobreviveram por causa do apoio dos Estados…

Rui Pena - É o que se conclui, por exemplo, de estudos como o de Phillipe Lamberts, o eurodeputado belga dos Verdes que cito no livro. O nível de ajudas à banca já excede 10 por cento da riqueza europeia. E sem esses apoios dos Estados, garantem estes especialistas, os bancos pura e simplesmente não seriam rentáveis.

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