O cínico e o hipócrita

Se, por qualquer motivo, o leitor tem dificuldade em distinguir um cínico de um hipócrita, basta ler ou ouvir as reacções nacionais, seja na televisão, seja nas redes sociais, após a imprensa internacional ter catalogado como VERGONHA a B-SAD ter sido obrigado a jogar com 9 jogadores contra o Benfica.
O cínico atira as culpas para cima do regulamento: "o jogo realizou-se por causa do regulamento". Este é o argumento típico do cínico lusitano: "dura lex sed lex".
Por sua vez, o hipócrita afirma categoricamente (e sem se deixar rir) que “se fosse o Benfica que só tivesse 9 jogadores, o jogo realizava-se na mesma." Este é o argumento típico dos hipócritas lusitanos, copiado do livro “O Triunfo dos Porcos” de George Orwell: “em Portugal, todos os clubes são iguais” (quando todos sabemos que há uns mais iguais do que outros).
Se Portugal tivesse a mesma taxa de vacinação contra o cinismo e a hipocrisia que tem contra a covid-19, seríamos hoje um país europeu formado por cidadãos no verdadeiro sentido da palavra. Como temos uma baixa taxa de vacinação contra o cinismo e a hipocrisia, não conseguimos a imunidade de grupo, essencial para vivermos num país decente formado por uma maioria de cidadãos honestos com consciência ética e cívica. Além disso, devido à baixa taxa de vacinação contra o cinismo e a hipocrisia, já apareceu, em Portugal, uma nova variante muito mais letal e contagiosa, que corrói e destrói todas as instituições: os Sem-Vergonha.
Enquanto o cidadão honrado recorre ao exemplo virtuoso para criticar os seus, o Sem-Vergonha recorre ao exemplo abjecto para se justificar a si e aos seus. O cidadão honrado dá como exemplo ao seu filho o bom aluno e o aluno bem-comportado, enquanto o sem-vergonha justifica os maus comportamentos do seu filho com os maus exemplos dos alunos do mesmo calibre do seu filho ou piores do que ele. E isto também se verificou no caso do jogo da B-SAD. Enquanto o cidadão Bernardo Silva, sócio do Benfica, se indignava nas redes sociais com o não adiamento do jogo, os Sem-Vergonha vasculhavam nos caixotes do lixo do Sporting e do Porto à procura de qualquer coisa repugnante para servir de justificação ao injustificável.
Santana-Maia Leonardo - jornal A Ponte de 6-12-2021