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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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14 Jul, 2020

O Claine

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A minha filha sempre quis ter um Husky Siberiano, mas eu fui educado pela minha avó que não queria cães em casa. Por isso, não valia a pena insistir.

Acontece que o meu filho, em 1998, já com 17 anos de idade, foi mordido por cão vadio e, segundo o médico, o cão teria de estar de quarentena durante 48 horas para se saber se tinha raiva. Trouxemos o cão para casa, prendemo-lo a uma árvore e esperámos as 48 horas. Ao fim das 48 horas, soltámos o cão, mas ele disse-me logo que já não se ia embora. E, como se não bastasse o descaramento do cão, os meus filhos colocaram-se ao lado dele e não deixaram o cão arredar pé dali. O que é que eu havia de fazer?

No dia 17 de Julho de 1998, o dia em que a minha filha fazia 18 anos, um amigo meu criador de Husky Siberianos, sabendo que a minha filha gostava daquela raça de cães, veio bater-me à porta nessa noite com um cachorro preto Husky Siberiano, nascido no dia 26 de Março desse ano e com pedigree, para oferecer à minha filha.

Como já lá estava o Rex, acabei por aceitar o presente que deixou a minha filha em delírio… E o Claine era um cão adorável. De aspecto parecia um lobo, mas tinha bom coração. É um daqueles cães que, se nos assaltarem a casa, ainda ajuda os ladrões a carregar os móveis. No entanto, quem não conhecesse o seu bom coração, a sua figura de lobo metia respeito. E os cães são como as pessoas: o aspecto conta muito. Quem via o Claine tirava-lhe sempre o chapéu… O respeitinho é muito bonito!

Até que um dia o Rex fartou-se da companhia do chato do Claine, arrumou a trouxa e fez-se à estrada sem sequer se despedir do anfitrião e pagar o alojamento. Mas quem é que calava agora o Claine que, sempre que estava sozinho, passava a vida a uivar?

Numa noite de Fevereiro de 1999, ao ir deitar o lixo à rua, saltou-me ao caminho o Calvin, um sem-abrigo de raça podendgo. Conversa puxa conversa, propus-lhe vir trabalhar para mim e, a troco de cama, mesa e roupa lavada, vir fazer de ama do Claine. Negócio fechado. Começou logo a trabalhar nessa noite.

Só que, passado um ano, de grandes amigos passaram a inimigos de morte, a tal ponto que tive de dividir o quintal ao meio para que não se cruzassem um com outro, caso contrário havia tiroteio pela certa. O meu quintal já parecia o Bairro Quinta da Fonte. Houve mesmo uma dia em que a minha mulher, em vez de chamar a polícia de choque, quis-se pôr no meio da briga para os separar e ia ficando sem um braço. Razão tinha a minha avó para não querer cães em casa. Mas agora já o mal estava feito…

Dividido o quintal ao meio, quem é que calava agora o Claine por voltar a estar sozinho? Para não correr riscos com novas amizades de rua, resolvi pedir outro Husky Siberiano ao tal meu amigo que tinha oferecido o cão à minha filha para fazer companhia ao Claine. E foi assim que chegou o Simba, um Husky Siberiano branco que foi o companheiro inseparável do Claine durante toda a sua vida.

O Claine e o Simba, um preto e um branco, eram a prova viva de que as pessoas inteligentes não são racistas. Qualquer deles era muito brincalhão e com um carácter tipicamente alentejano. Eram muito obedientes. Uma pessoa dizia-lhes: ou vens ou ficas? E eles ou vinham ou ficavam.

Mas, sobretudo, o Claine tinha um feitio muito parecido com o meu. Quando eu chegava, fazia uma grande festa, mas depois ia à sua vida. Era uma pessoa com espírito independente, livre e de poucas falas. Nunca usou coleira. E, apesar de ter sofrido uma doença grave que prenunciava uma vida curta, a verdade é que foi até hoje o cão que viveu mais anos comigo, tendo morrido com 14 anos, de velhice e de morte natural.

A partir dos 10 anos (ver foto), era notório que a vida lhe começava a pesar. Mas foi-se aguentando, sem nunca dar parte de fraco.

No dia 14 de Julho de 2012, antes de sair para o escritório, apenas o Simba veio ter comigo, tendo o Claine continuado deitado sem se mexer. Fui até ao pé dele e constatei que estava a dormir profundamente. Não valia a pena acordá-lo. Fiz-lhe uma festa e deixei-o ficar a dormir eternamente.

Santana-Maia Leonardo