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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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Todas as comunidades humanas, mais dia, menos dia, têm de enfrentar situações de grande adversidade e calamidades, como é agora o caso da COVID-19. E se os valores de cidadania são sempre de valorizar, porque contribuem para um crescimento e desenvolvimento saudável das sociedades, assente na confiança nas instituições e na justiça das decisões, são fulcrais para enfrentar situações de grande adversidade ou de calamidade.

Ora, a Revolução de Abril contentou-se em derrubar a ditadura, acabando por entregar o poder e as diferentes instituições a gente sem quaisquer escrúpulos, para quem a conquista e a manutenção do poder eram o seu único objectivo, não olhando a meios para o conseguir. E quem não perfilhasse a ideologia do “chico-espertismo” e do “salve-se quem puder” era gozado e humilhado publicamente como se a seriedade e a honestidade fossem arcaísmos típicos da Idade da Pedra.

O municipalismo transformou-se, assim, na grande escola dos valores do Portugal de Abril. Quem conhecer como funciona uma pequena câmara municipal, conhece o funcionamento do país e de todas as suas instituições. Se olharem para todos os escândalos (governo, câmaras, tribunais, administração e autoridades públicas, bancos, clubes de futebol, comunicação social, etc), que vão saltando para a ribalta cada vez que alguém dá um pontapé numa pedra, todos têm o mesmo padrão cultural das pequenas autarquias de província: o amiguismo, a cunha e o compadrio. E ai de quem, neste caldo de cultura, não faça um favor a um amigo bem colocado!... Temos de nos ajudar uns aos outros, não é? É assim que se chega a ministro, a deputado e a presidente disto ou daquilo.

A formação desportiva e o serviço militar obrigatório, numa sociedade com as limitações culturais da portuguesa, são peças-chave para interiorizar valores e comportamentos fundamentais, como é o caso da honra (trave-mestra do edifício dos valores), do espírito de missão e do espírito de corpo. O Espírito de Corpo é essencial para a sobrevivência de qualquer comunidade: cada cidadão deve não só desempenhar, com a máxima seriedade e competência, o papel que lhe está socialmente atribuído como confiar que os outros fazem o mesmo.  

Acontece que o serviço militar obrigatório foi desmantelado, depois de ter sido ridicularizado. E a cultura desportiva resume-se a isto: “o que importa é ganhar nem que seja com um golo com a mão e em fora-de-jogo”. Com esta mentalidade e neste caldo de cultura do “salve-se quem puder” e “com o mal dos outros posso eu bem”, é impossível que alguém possa confiar em quem quer que seja, quanto mais em governantes e em dirigentes que toda a gente conhece de ginjeira e sabe como lá chegaram.

Resumindo: ainda há portugueses honestos? Há. Mas não generalizemos…

Santana-Maia Leonardo