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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Rui Ramos - Observador de 11-2-2015

(...) As dificuldades da Grécia, como de outros países sob assistência, não derivam apenas de um mau desenho do programa de ajustamento. Talvez o programa pudesse ter sido melhor, mas a falta de competitividade da economia grega e sobretudo a sua recusa de melhorar essa competitividade são talvez candidatos mais forte para causas da estagnação. O que define o Syriza e os seus aliados de extrema-direita racista não é o repúdio da dívida, que até já querem pagar. Aquilo em que verdadeiramente consiste o seu projecto é na recusa da abertura e da flexibilização da economia.

Esta resistência à mudança permite antecipar que, mesmo que os eleitorados dos países excedentários do norte pudessem ser persuadidos a ser ainda mais generosos, a nova liberalidade seria mal aproveitada pelos países deficitários do sul. Não se trata de um raciocínio moral. Se o dinheiro barato ou o subsídio fossem a solução, a Grécia nunca deveria ter tido problemas, porque há trinta anos que recebe fundos do norte da Europa para se desenvolver e escapar a bancarrotas (só desde 2010, embolsou 240 mil milhões de euros a juros baixos e com maturidades longas, e teve uma grande parte da dívida perdoada). Sem as chamadas “reformas”, o dinheiro, só por si, nunca será mais do que um paliativo temporário, tal como os perdões de dívida, porque a economia da Grécia não é capaz de usar os recursos de outra maneira. Muito provavelmente, serviria apenas para aumentar as importações com origem na Alemanha, como já está a acontecer em Portugal. Ora, ao eleger o governo do Syriza e da extrema-direita, o eleitorado grego sinalizou que não quer adaptar a sua economia para funcionar dentro da zona Euro. (...)

Neste ponto, chegámos ao maior erro da zona Euro, e que, esse sim, é o erro fatal: a ideia de que o enquadramento e a pressão externa bastariam para provocar mudanças na Grécia e em outros países, independentemente das configurações de forças políticas internas. Bem apertados, os gregos arranjar-se-iam para resolver o problema. Não se arranjaram. Pelo contrário: a pressão externa serviu apenas para fazer os partidos europeístas parecerem agentes de um castigo estrangeiro, e deu a bandeira da soberania aos populismos da extrema-esquerda e da extrema-direita. Mais: o enquadramento do Euro criou a expectativa de que, para preservar a união monetária, toda a UE acabaria por submeter-se ao Syriza, cujo despesismo pareceu assim credível aos eleitores gregos. Ironia da história: o Euro, que se julgava fosse o instrumento de transformação do sul, funciona agora como a primeira barricada do imobilismo.

Em suma, o “erro” não está apenas na relutância da Europa do norte em partilhar os seus excedentes. A questão é política e não simplesmente monetária, e como tal não pode ser resolvida pelo expediente das transferências ou por outro qualquer novo malabarismo financeiro. Alan Greenspan pode ter razão desta vez: é preciso criar condições para que a Grécia dirigida pelo Syriza e pela extrema-direita possa seguir o seu caminho alternativo fora da zona Euro.

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