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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

José Manuel Fernandes - Observador de 28-12-2014

Toda vida me considerei um idealista – mas o passar dos anos tem feito de mim alguém muito mais céptico. Só espero não acabar cínico, ficando apenas pelo realismo. É que não têm faltado motivos para desesperar dos “grandes sonhos” e dos “grandes desígnios”.

Comecemos por Portugal. Estamos presos numa armadilha que se chama euro. Sem ele teríamos sido ainda mais periféricos do que somos, com ele ficámos presos a regras que limitam a nossa autodeterminação. Se o abandonarmos, o mínimo que enfrentaremos será uma crise que fará parecer coisa de crianças a que acabámos de viver; se não o abandonarmos, viveremos numa espécie de purgatório sem fim à vista. As escolhas políticas e económicas são cada vez mais entre o mal maior e mal menor, sendo que uma parte do país até já acha que a pedinchice é o nosso mais nobre destino – tudo depende, dizem, de nos juntarmos a uma boa e reivindicativa coligação de pedintes. (...)

Nunca o sonho europeu, alimentado por tantos meritórios idealismos e disparatadas utopias, esteve tão perto do pesadelo. Por todo o lado o nacionalismo zangado está tornar-se o refúgio da desilusão e do desencanto. O populismo ocupou o lugar da racionalidade e do compromisso.

O problema não é das lideranças e da falta de supostos “homens de Estado” visionários – o problema é do legado irrealista que os visionários nos deixaram. 

Se saltarmos da Europa para mundo, vivemos um momento quase perfeito de desilusão idealista. (...)

Sem uma potência hegemónica, sem o odiado “grande satã” (ou com este encolhido e temeroso, como é a América de Obama), de repente a desordem aumentou, a infelicidade e a insegurança aumentaram, o número de refugiados nunca foi tão grande, os sonhos nunca foram tão ausentes, as Nações Unidas nunca foram tão inúteis. Basta pensar nessa maior de todas as ilusões que foi a “primavera árabe”.

Recuperemos pois algum realismo para evitarmos a submissão total ao cinismo – ou, então, a impotência quase criminosa dos idealismos bem-pensantes, dessa trupe que vai dos pacifistas aos multilateralistas.

Em Portugal não há volta a dar: temos de procurar viver com os nossos próprios meios, adaptarmos o nosso sistema económico e político a uma era que vai ser de menos expectativas e mais esforço. Pedirmos a outros para resolverem os nossos problemas (e as nossas dívidas) não é solução, antes pode tornar ainda mais difícil a outra solução, a europeia, pois essa terá de permitir alguma renacionalização de políticas. (...)

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