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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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14 Set, 2020

O meu tio Armando

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A primeira imagem que guardo do meu tio é o doloroso embarque em 1961, com o Regimento de Cavalaria do Spínola, no navio que o ia transportar a Bessa Monteiro, no seguimento do apelo de Salazar "Para Angola e em força!"

Na manhã do dia 2 de Dezembro de 1967, foi também o meu tio que, na sala de jantar da minha casa de Setúbal, me disse "os homens não choram!", depois de me informar da morte do meu pai. E eu fiz-me forte e não chorei. E durante muitos e muitos anos, nunca dei o prazer a ninguém de me ver chorar.

Em todo o caso, o meu tio não seguia o conselho que me deu como, mais tarde, vim a constatar, uma vez que chorava com muita facilidade. Mas eu segui sempre o seu conselho até ao momento em que a idade me começou a tornar indiferente à opinião dos outros.

Foi também o meu tio que me trouxe nesse dia para Ponte de Sor para casa dos meus avós maternos onde passei a residir desde os 9 anos de idade.

Com a morte do meu pai, o meu tio passou a ser um referencial para mim e, a partir dos meus 16 anos, tornou-se no meu melhor amigo, apesar da diferença de idades.

O meu tio tinha uma forma de estar que o fazia ser amado por toda a gente. Mesmo nas dificuldades, demonstrava grandeza. Era um nobre que gostava de viver entre o povo. Ou seja, UM SENHOR, no verdadeiro sentido da palavra. O meu tio sabia estar, sem nunca destoar, quer entre a gente mais fina e educada, quer entre a gente mais pobre e analfabeta, apesar de ser com a gente do campo e menos letrada que se sentia melhor.

Até porque, como gostava de se definir, era um homem do campo.

A vida nem sempre lhe foi fácil, bem pelo contrário, mas, mesmo nos piores momentos, o meu tio nunca perdeu esse seu maior dom: o prazer de viver.

Até que chegou o dia 14 de Setembro de 2006.

Santana-Maia Leonardo