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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Maria Filomena Bonifácio - Observador de 10-1-2015

(...) Apesar de todas as vicissitudes e das gigantescas tragédias que marcaram o século XX, este “nosso modo de vida” ressuscitou depois de 1945 e sobreviveu até ao 11 de Setembro de 2001. Mais do que sobreviveu: a partir dos anos 60 do século passado, a intelectualidade de esquerda deu-lhe para desprezar como uma burguesisse “o nosso modo de vida” cuja preciosidade parece só descobrir quando o sente ameaçado por um abalo sísmico como estamos a sofrer com a mais recente barbaridade do fanatismo islâmico. Entretanto, “o nosso modo de vida” foi sendo, e continua a ser, agredido por intelectuais, académicos e diletantes que pregam o absoluto relativismo civilizacional, exigindo ao Ocidente que se ajoelhe perante exotismos que pouco ou nada acrescentaram nem acrescentam às criações mais sublimes da Humanidade, nem, mais próximo do tema que me ocupa, geraram o conceito do indivíduo livre e autónomo ou inventaram os Direitos do Homem que humanizaram as sociedades. Muito precisamente, “o nosso modo de vida” que tanto encarecemos é o modo de vida ocidental.

Define-o a liberdade, o pluralismo e a tolerância. Por uma trágica ironia, estes, que são dos nossos mais caros valores, são também as armas de que os nossos inimigos se servem para os destruírem. Estamos aqui perante uma situação típica da tragédia clássica: não há saída senão para a morte. Nas mesquitas inglesas, até há bem pouco tempo, pregava-se a jihad. Foi nos Estados Unidos que os assassinos de mais de 20.000 pessoas aprenderam a pilotar os aviões que lançaram contra as Torres Gémeas em 2001. Os novos bárbaros adquirem treino militar nos nossos territórios, e nas horas vagas circulam entre nós livremente, sem que os possamos reconhecer. Restrições razoáveis à imigração são claramente insuficientes para os detectar e deter.

Devemos então ir para além disso? Não, não devemos nem podemos. Pelo simples motivo de que uma Europa entrincheirada por trás dos muros de uma fortaleza não seria a Europa, seria um agregado de estados policiais com as ameias guarnecidas de metralhadoras e os cidadãos vigiados por polícias e censores. Uma tal Europa seria o aniquilamento do “nosso modo de vida” e a vitória dos nossos carrascos. Estão reunidos os elementos de um destino trágico, pré-inscrito nos pressupostos que regem a nossa vida individual e colectiva. Nada é eterno. Afinal, Roma também caiu perante os bárbaros. (...)