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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Paulo Tunhas - Observador de 13-11-2014

(...) Seria errado interpretar o Editorial do “Avante!” de 6 de Novembro como uma manifestação de simples nostalgia, a tender para o criminoso, do glorioso mundo da defunta RDA, e, por extensão, de todo o universo da antiga URSS, com os seus gulags e belezas adjacentes. É isso talvez em parte, pelo menos visto de fora, mas é muito mais do que isso. É sobretudo a reiteração de uma confiança cega de que a história possui um sentido (na dupla acepção de “direcção” e “significado”) e de que os recuos presentes, simbolicamente representados pela queda do muro, possuem um carácter puramente provisório que a história mais cedo ou mais tarde se encarregará de colocar no devido “caixote de lixo”. Essa convicção não é de ordem pragmática: é antes algo próximo de uma alucinação que serve para enquadrar toda uma percepção da realidade. Não é um fingimento útil: é uma crença absoluta.

Senão, vejamos. Quem são os fautores da queda? As “forças da reacção e da social-democracia”. Sim, da social-democracia também, porque a social-democracia é uma velha inimiga, muitas vezes a inimiga principal, o “social-fascismo”. Quer dizer: forças que tentam contrariar o curso natural da história. (...)

Resumindo. Na RDA não havia a Stasi, não havia uma terrível miséria no plano da sociabilidade, não havia gente disposta a arriscar a morte para fugir de lá. A linguagem utilizada para o dizer é intemporal, situa-se fora do tempo, como nos grandes mitos. É uma história sem história e, por isso, sem atenção ao sofrimento humano. Ou melhor: o sofrimento humano encontra-se antecipadamente justificado pela necessidade férrea das míticas leis da história.

Há uma coisa óbvia que resulta destas convicções fundas, e sobretudo da convicção maior no sentido da história, que é algo muito mais forte que as alambicadas “narrativas” pósmodernas. Num mundo ideal, no qual felizmente não vivemos, o PCP, tomando o poder, não hesitaria em repetir os maravilhosos processos utilizados na antiga RDA, e no resto do império “soviético”, para manter viva a paixão do socialismo. Se não nos cortassem o gasganete, teríamos direito, pelo menos, a uma perseguição política impiedosa e a uma diminuição radical das nossas liberdades ambientes. Para lá, é claro, da miséria que nesse mundo ideal seria o pão nosso de cada dia. Dizer que o PCP não aprendeu nada nem esqueceu nada é um eufemismo. Porque o tempo, num sentido profundo, não passou por ele.