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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Santana-Maia Leonardo - Ribatejo de 13-6-2016 e Rede Regional de 2-5-2016 

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Comecemos pelo fim. O Dr. Eurico Heitor Consciência teve a morte que merecia e que eu, confesso, também desejava. Trabalhou todo o dia, deitou-se de consciência tranquila, adormeceu e, no dia seguinte, cumpriu a profecia do Gênesis: "Pois tu és pó, e ao pó retornarás.”

Abrantes, infelizmente, é uma cidade demasiado pequenina para reconhecer a grandeza do homem que acabara de perder. O Dr. Eurico Consciência foi um homem multifacetado: advogado prestigiado a nível nacional, com obra publicada e reconhecida, activista político e com intervenção política, professor universitário e director de jornal, magistrado do ministério público e notário, para além de ter sido um cronista temível e temido. Em todo o caso, aquilo que verdadeiramente o distinguia dos muitos homens multifacetados que há por esse país fora e o tornava excepcional, era o seu carácter de homem livre, totalmente avesso à tão lusitana cultura de rebanho. Não há por esse país fora muita gente com o desprendimento, a verticalidade e a frontalidade de Eurico Consciência. Esta é, aliás, a principal razão por que muita gente não gostava dele. Como dizia Simone de Beauvoir, "os outros detestam em mim o que me distingue deles". E o abrantino tinha muito por onde detestar o Dr. Eurico Consciência.

Apesar de não ser ribatejano, o Dr. Eurico Consciência, para além de ter o sangue do toiro bravo, sempre gostou de pegar o toiro pelos cornos que é coisa que por aqui é difícil de encontrar. O português sempre puxou mais para o boi manso e é mais do tipo rabejador: gosta muito de falar por trás mas não tem peito para enfrentar o toiro de frente.

Mas o Dr. Eurico Consciência conhecia bem o chão que pisava. Em 2008, quando fui convidado para candidato a presidente da Câmara de Abrantes, pedi conselho a três pessoas de Abrantes que, na altura, estimava e confiava, uma delas o Dr. Eurico Consciência, como não podia deixar de ser. Infelizmente acabei por seguir o conselho da maioria, em vez de ter seguido o conselho avisado do Dr. Eurico Consciência: "Se se candidatar pode contar com o meu apoio, mas, se quer o meu conselho, não se meta nisso porque as pessoas de Abrantes e, sobretudo, do PSD (...)".

Em Outubro de 2014, no início do meu mandato como presidente da delegação de Abrantes da Ordem dos Advogados, a delegação decidiu participar nas comemorações do aniversário do Conselho Distrital de Évora com uma iniciativa que eu considerava de sucesso garantido: uma conferência sobre o mapa judiciário, aliada a uma merecida homenagem ao Dr. Eurico Consciência, com a entrega da medalha de honra do Conselho Distrital, pelo seu percurso ímpar na advocacia portuguesa e por ser a grande figura de referência da advocacia abrantina.

Com efeito, quer pelo facto de Abrantes ter sido a cidade portuguesa que mais perdeu com a nova reorganização judiciária, quer pela homenagem ao Dr. Eurico Consciência, no ocaso de uma vida repleta e brilhante, seria impossível que não houvesse uma grande mobilização dos abrantinos em torno desta iniciativa. Nas vésperas do evento e em boa hora, vieram-me, no entanto, à memória as palavras do Dr. Eurico Consciência sobre as pessoas de Abrantes e, à cautela, resolvi convocar toda a minha família: mãe, mulher, filhos, genro, nora e netos.

Após a realização da conferência e da homenagem, fomos todos jantar. Sentei-me ao lado do Dr. Eurico Consciência que, com o seu habitual sentido de humor e frontalidade, me disse: "se não fosse você ter trazido a sua família e eu a minha, não estava lá ninguém. Mas não se preocupe que eu já estava à espera."

O que eu espero agora, no entanto, é ver-lhe ser atribuídos no dia do Centenário da Cidade de Abrantes, a título póstumo, a medalha de honra e o nome de uma das ruas ou avenidas mais arejadas da nossa urbe, a não ser que este tipo de homenagem esteja reservado exclusivamente ao pagamento de favores ou a premiar a dedicação partidária. Mas, se for esse o caso, sempre se podia abrir uma excepção, para, desta vez, sem exemplo, se reconhecer o mérito.