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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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31 Jul, 2020

O Petit

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Em Março de 2006, tinha tantos cães em casa que, para mexer um braço, tinha de abrir a janela. Já não cabia lá nem a cabeça de um alfinete…

Mas isso não impediu a minha filha de me pedir, pelo amor de Deus e de todos os santinhos conhecidos e desconhecidos, mais um grande favor, garantindo-me que eu não teria de me preocupar com nada, ao contrário do que tinha sucedido das outras vezes, porque agora (desta vez é que era! Palavra de Escuteiro!) ela tratava de tudo.

E que grande favor era esse? Deixar levar para o quintal do escritório um casal de cães vadios podengos de pêlo cerdoso, um médio (a cadela) e outro pequeno (o cão), que encontrou num beco perto da nossa casa. Comecei por dizer “Nem pensar!” para acabar por dizer que “Sim” sem pensar. Caio sempre na mesma esparrela…

O quintal do escritório é ladeado por muros altos com um portão e, na altura, tinha uma varanda coberta (ver foto) que serviu para colocar as casotas dos cães, a comida e a água. A cadela foi baptizada pela minha filha com o nome de Íris, em homenagem à viagem ao Egipto de que tanto gostara, e o cão com o nome de Petit, devido ao seu tamanho. Até pela escolha dos nomes se vê dedo feminino: para as mulheres, os nomes catitas; para os homens, as alcunhas. Mas, como os cães não eram meus, não me manifestei…

No entanto, no dia seguinte, ao fazer a revista às tropas, verifiquei que se encontrava no meio do quintal um enorme coelho morto. Mas como é que o coelho ali foi parar? O portão estava fechado, os muros tinham mais de 1,80 m de altura…

O mistério ficou desfeito pouco tempo depois, quando um vizinho apareceu a reclamar o coelho, dizendo que a Íris e o Petit lhe tinham assaltado a coelheira com o objectivo de me pagarem a estadia.

E como é que os dois cães conseguiram sair do quintal? Através de uma romanzeira que estava encostada ao muro…Treparam pela árvore, saltaram o muro, assaltaram a coelheira e regressaram com o coelho.

Quanto à minha filha, nunca mais a vi!... Quem teve de se haver com o vizinho, de lhe pedir desculpa e pagar os coelhos fui eu. Quem teve de pagar as obras no muro para impedir os cães de voltar fugir e a semear o pânico e a devastação nos quintais dos vizinhos fui eu. Irra! Nunca mais aprendo…

Passado pouco tempo, mais uma surpresa. Vim a saber que o Petit tinha tido relações sexuais com a Íris sem ter usado preservativo, depois de eu me ter fartado de o avisar. Nem, ao menos, se deu ao trabalho de contar pelos dedos para ver se a namorada estava no período fértil… Que grande irresponsável!

Razão tem o povo, quando diz que “não há dois sem três”. E, no dia 19 de Setembro de 2006, nasceu o Sebastião que, verdade se diga, viria a ser um dos meus melhores amigos. Mas essa é outra história…

O Petit tinha um carácter totalmente oposto ao da Íris, que era uma cadela reservada, desconfiada e medrosa. O Petit, pelo contrário, era um cão muito afável, alegre, meigo, que vinha logo ter connosco e que só queria festas.

Ainda o Sebastião não tinha feito um ano, quando dei com o Sebastião no quintal do escritório a coxear e com um cordel atado ao pescoço. Não havia dúvidas de que alguém tinha saltado o muro do escritório e raptado o cachorro que, pelos vistos, se conseguiu libertar do cativeiro e regressar, pelos seus próprios meios, a casa.

No dia 27 de Março de 2008, um indivíduo da Margem Sul assaltou-me o quintal do escritório e raptou a Íris que acabei por conseguir recuperar no dia seguinte, em condições dignas de um filme de suspense, como relatei na história da Íris.

Para evitar que voltasse a suceder o mesmo, resolvi fazer obras no quintal do escritório, criando uma nova barreira para dissuadir os assaltantes. Mas isso, infelizmente, não impediu que alguém, na madrugada de 23 de Janeiro de 2012, cortasse as vedações e arrombasse o portão, tendo desaparecido, nessa noite, os três cães.

Quando cheguei ao escritório no outro dia de manhã e dei conta da ocorrência, fiquei sem pinga de sangue. Como dizia Alexandre Herculano, “quanto mais conheço os homens mais estimo os animais”.

Com efeito, quando a Íris e o Petit se encontravam a dormir debaixo da ponte, ninguém se interessou pela sua sorte, nem os quis adoptar. Agora já era a terceira vez que me assaltavam o escritório para me roubar os cães.

Passado pouco tempo de ter dado com o quintal devassado e vandalizado, apareceu a Íris. Esta, pelo menos, tinha aprendido a lição. Corri Ponte de Sor com a minha filha à procura do Sebastião e do Petit. Disseram-nos que tinham visto um podengo de pêlo cerdoso junto do rio. Era o Sebastião. Este também tinha aprendido a lição. Só já faltava o Petit. Mas o Petit nunca mais apareceu, apesar de ter microchip.

Corremos tudo à procura dele. Nos dias seguintes, percorri a estrada de Alter, de Avis, do Gavião, de Abrantes, de Montargil, parando nos montes e perguntando se o tinham visto… Nada.

Distribuímos panfletos com a foto a pedir informações. Um familiar disse-me que tinha visto um cão parecido na Azervadinha. Liguei à GNR, foram lá buscar o cão… Mas não era o Petit.

Todos os dias esperava que alguém me desse uma informação sobre o seu paradeiro, como sucedeu com a Íris, ou que o Petit se conseguisse libertar do seu cativeiro e regressar a casa pelos seus próprios meios, como aconteceu com o Sebastião e o Calvin.

Mas até hoje continuo sem saber o que aconteceu ao Petit. Já não era uma pessoa nova quando despareceu pelo que já terá morrido. E, se a morte dói muito, o desaparecimento consome mais, porque prolonga a angústia da perda, diluindo-a numa vã esperança de um reencontro sempre adiado.

Só espero que tenha encontrado alguém que lhe tivesse proporcionado um final de vida feliz, ainda que ninguém consiga ser inteiramente feliz quando morre longe da família e dos amigos.

Santana-Maia Leonardo