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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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12 Ago, 2020

O Simba

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O Simba nasceu no dia 12 de Agosto de 1999.

Era um Husky Siberiano branco, com um olho azul e outro castanho, que parecia uma daquelas crianças de cara redonda e bolachuda a que só apetece apertar as bochechas. Era um autêntico peluche e só queria brincadeira. Quando chegávamos, enrolava-se no chão aos nossos pés para lhe fazermos cócegas na barriga e, depois, fazia uma festa.

Chegou a minha casa, a meu pedido, com o objectivo de permitir que eu voltasse a dormir as noites descansadas. E porquê? Porque tinham dado um Husky Siberiano preto à minha filha de prenda de aniversário que era um chato, porque passava a vida a uivar sempre que ficava sozinho. Segundo me explicaram, os Husky Siberianos são cães de matilha que não gostam de estar sozinhos, o que significava que a solução era encomendar outro, que foi precisamente o que eu fiz, depois de ter passado umas noites sem dormir. Mas deu resultado.

O Claine e o Simba cresceram como irmãos, apesar de serem muito diferentes.  O Claine era preto, reservado, de poucas falas e não se dava com qualquer cão. Pelo contrário, o Simba era branco, muito sociável, dava-se com todos os cães e toda a gente gostava dele. Ou seja, o Claine era a minha cara chapada e o Simba era o meu filho em pessoa. Escusado será dizer que o Simba era o cão preferido da minha mulher.

E foi também o meu filho que o baptizou, porque, nisto de escolher os nomes, eu só servia mesmo para pagar o baptizado. E o nome escolhido foi, como não podia deixar de ser, o do Rei Leão, não só por ser um filme que marcou a geração do meu filho, mas por ter herdado do meu avô materno uma costela leonina.

No início do ano de 2012, o Claine, a aproximar-se dos 14 anos e com alguns problemas de saúde e de visão, começava a dar sinais de que a vida lhe começava a pesar. No entanto, o Simba, um ano mais novo e sempre mais vivaço e brincalhão, parecia que tinha saúde para dar e vender. Mas um inchaço nos sacos anais chamou-me a atenção. Levei-o ao veterinário e o diagnóstico foi o pior possível. Tratava-se de um tumor maligno, já num estado adiantado pelo que devia ponderar a hipótese da eutanásia.

Quanto tempo mais poderia viver? Umas semanas, na melhor das hipóteses, mas era necessário limpar-lhe todos os dias os sacos anais e dar-lhe medicamentação duas vezes ao dia, para que pudesse ter alguma qualidade de vida.

Quando temos vinte ou trinta anos, a vida só faz sentido se não virmos o fundo ao tacho. Com efeito, para quem pensa viver até aos 90 anos, algumas semanas de vida não têm significado, nem justificam o sacrifício. Para quê prolongar artificialmente a vida apenas por mais umas semanas? Se fosse por um ano ou dois, ainda vá que não vá... Mas por umas semanas? Que sentido faz?

É óbvio que não faz qualquer sentido, a não ser para quem esteja na mesma situação do Simba que era precisamente o meu caso. Aqui é que a porca torce o rabo… Com efeito, quando, por força da idade ou da doença, começamos a ver a cova, cada dia passa a ser saboreado como se fosse o último cigarro do condenado à morte.

Ora, eu e o Simba, naquele momento, estávamos na mesma onda. Ambos tínhamos aprendido à nossa custa que, na vida, todos os dias fazem sentido, sob pena de a vida não fazer sentido nenhum. E um milhão de anos, na linha do tempo à escala da eternidade, é um minúsculo ponto que ocupa o mesmo espaço de um dia.

Deixemo-nos de fantasias. Todos havemos de morrer e todos seremos esquecidos. Os homens eternos raramente sobrevivem à terceira geração e passados cem mil anos já ninguém vai saber sequer que existiu Portugal, nem portugueses, nem a língua portuguesa, nem Camões, nem Beethoven. E cem mil anos passam num instante. Basta olhar para trás. Se cem mil anos demorassem muito tempo a passar, eu ainda não tinha nascido.

Ora, como ensina o Novo Testamento, deixemo-nos de filosofias baratas e saibamos gozar o dia que passa sem lhe acrescentar outras preocupações. “Basta a cada dia o seu dia.” E, algumas semanas de vida, para quem vive na iminência de morrer a qualquer momento, é uma eternidade.

E, a partir daquele momento, passei a tratar o Simba como se o Simba me estivesse a tratar a mim. Todos os dias, o Simba vinha ter comigo, deitava-se para eu lhe limpar os sacos anais e dar-lhe os comprimidos. E os dias foram-se passando e as poucas semanas de vida que lhe tinham sido prognosticadas foram-se estendendo por meses. Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho…

No dia 14 de Julho de 2012, ainda foi comigo ao velório e ao funeral do seu amigo Claine que teve uma daquelas mortes que todos gostaríamos de ter. Na véspera, deitou-se, adormeceu e já não acordou.

Entretanto, Julho chegou ao fim e seguiu-se-lhe Agosto, Setembro, Outubro e Novembro. Onze meses a limpar-lhe todos os dias os sacos anais e a medicá-lo, o que fez com que a nossa relação se fortalecesse muito. Mas no dia 30 de Novembro de 2012, quando fui para lhe fazer o tratamento, o Simba disse-me que tinha chegado a sua hora. “Já não me consigo levantar. Tens de chamar a veterinária”. Liguei à veterinária que não demorou. O Simba, então, deitou-se de lado, agradeceu-me, fechou os olhos e foi ter com o seu amigo Claine que já estava cheio saudades dele.

Santana-Maia Leonardo