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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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25 Jul, 2020

O Zizou

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O Zizou apareceu no meu monte em Fevereiro de 2002, já homem feito. Era um daqueles cães, sem vocação para caçar, de que os caçadores se vão desfazendo pelo caminho.

Como, na altura, o meu filho tinha uma grande admiração por Zidane, pôs-lhe o nome de Zizou. E, como o seu destino era ficar no monte, não levantei objecções à escolha do nome de um madridista.

Acontece que o nosso Zidane vinha com uma lesão grave na pata esquerda, a fazer lembrar uma daquelas entradas a matar de Sérgio Ramos. E, como as mezinhas do nosso massagista lá do monte não produziam os efeitos desejados, resolvemos levá-lo à veterinária. Moral da história: o Zizou tinha a pata fracturada e tinha de ser amputada.

Com a amputação da pata esquerda, tornou-se necessário que a sua recuperação fosse feita na minha casa para poder ser vigiado, tratado e medicado. E por lá ficou. Há cães com sorte. E, como mais uma vez ficou demonstrado, a sorte aparece muitas vezes na nossa vida disfarçada de desgraça. Não nos devemos, por isso, precipitar a puxar o gatilho, quando alguma desgraça nos acontece. “Veremos!”, como ensinava o Mestre Zen.

E a verdade é que o Zizou passou a respirar felicidade por todos os poros, ao sentir-se importante por ser objecto de tantas atenções na sua convalescença. Nunca vi uma pessoa tão feliz por ter ficado sem uma perna. Era um cão educadíssimo, meigo, alegre, independente e enérgico. A pata esquerda não lhe fazia falta nenhuma. Fazia o mesmo que os outros faziam.

No entanto, foi o único cão que nunca teve a tentação de sair para a rua, mesmo que deixássemos o portão aberto, e o único que nunca entrou na minha casa, apesar de ter liberdade para o fazer. O Zizou nunca foi do tipo “Maria vai com as outras”. Os outros cães, mal viam a porta aberta, entravam por ali fora e o Calvin, se visse a porta fechada, até chegava a bater à porta para entrar. Mas o Zizou nunca entrava, mesmo que eu o chamasse. Ficava sempre sentado porta à espera ou que o pessoal voltasse a sair ou que eu lhe viesse dar um biscoito. Mas, entrar, não entrava…

E foi um cão que bebeu a vida até à última gota. Não deixou um único dia de vida por viver. No dia 8 de Março de 2013, às 16 horas, muito velhinho e já sem se conseguir levantar, chamou-me, estendeu-me a pata direita, que eu apertei, e deixou-se morrer com aquele olhar terno e agradecido com que sempre o conheci.

Santana-Maia Leonardo