Os clubes e as lojas
Santana-Maia Leonardo

O problema do futebol português reside numa contradição insolúvel.
Por um lado, os nossos "gloriosos-grandes-de-trazer-por-casa" não querem ser verdadeiramente grandes, caso contrário teriam diligenciado junto da Liga espanhola pela criação de uma Liga Ibérica. Com efeito, com a industrialização do futebol, é impossível ser grande sem participar numa grande liga europeia. E uma grande Liga Ibérica era também do interesse dos clubes espanhóis, como é evidente.
Por outro lado, preferindo o aconchego da liga portuguesa, onde fazem o que querem sem correr riscos, os nossos "gloriosos-grandes-de-trazer-por-casa" também não estão interessados em criar uma liga competitiva como a holandesa. E porquê? Porque Benfica, Sporting e Porto vivem e sobrevivem, hoje, exclusivamente da venda de jogadores.
Veja-se o caso do Sevilha, Atlético de Madrid, Real Sociedade, Valência, Watford, West Ham, Leicester, Marselha, Lyon, RD Leipzig, Nápoles, etc, clubes estes que, não sendo grandes clubes europeus, não vivem para vender jogadores como os nossos "gloriosos-grandes-de-trazer-por-casa". É certo que podem ter de os vender se algum dos grandes clubes europeus os quiser comprar mas não vivem para os vender. E tanto assim que, quando vendem algum jogador, vão buscar outro de valor idêntico.
Ao contrário do que muito boa gente quer fazer crer, não é a compra do Neymar por 200 milhões que põe em risco a competitividade do futebol mundial, tal como não seria a compra do Jonas pelo Sporting ou do William Carvalho pelo Benfica por 100 milhões de euros que poria em risco a competitividade do nosso campeonato. Bem pelo contrário. Neymar, Jonas e William são bons jogadores mas cada um deles é apenas um jogador. Ainda ficam muitos jogadores livres. O que mata a competitividade do futebol é aquilo que Benfica, Sporting e Porto fazem. Ou seja, pesca de arrasto. Açambarcam praticamente a totalidade de jogadores acessíveis às bolsas dos restantes clubes portugueses, obrigando estes a vir comer-lhes à mão para funcionarem como barrigas de aluguer e controlarem-lhe o voto.
Hoje, Sporting, Benfica e Porto vivem, exclusivamente, para negociar jogadores. E é por isso que têm tanto interesse em ir à Liga dos Campeões. O seu interesse em ir à Liga dos Campeões não é para vencê-la mas para aproveitar a Liga dos Campeões como montra para venda dos seus melhores jogadores.
Aliás, são os próprios benfiquistas, sportinguistas e portistas que não têm vergonha sequer em assumir publicamente o seu estatuto de feirante quando falam das competições europeias como "montra". Sendo certo que os únicos beneficiários desta transformação dos clubes portugueses em lojas e sucursais e da consequente viciação da competição são os agentes e os seus acólitos, também denominados administradores das SAD.