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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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11 Dez, 2020

Paquito, meu amor

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Conheci o Paquito, em Ponta Delgada, no dia 10 de Março de 2011, mais precisamente no Convento de Belém, a residência do Representante da República para a Região Autónoma dos Açores. A minha mãe já me tinha falado desse cão tão bonito e tão meigo, um bichon maltês cruzado com caniche, cujos donos eram os funcionários da referida residência, mas, tendo tantos cães a meu cargo, achei sempre que era impossível haver um cão mais bonito do que os meus.

A minha mãe enviuvou com 29 anos de idade, no dia 1 de Dezembro de 1967. Na altura, tinha apenas o antigo 5.º ano (hoje, 9.º ano), porque o meu avô, apesar de a minha mãe ser a melhor aluna do Colégio de Nossa Senhora de Fátima, em Abrantes, achava que o lugar das mulheres era em casa a cuidar dos filhos, tendo apostado todas as fichas no meu tio Armando para continuar a dinastia de Direito deste ramo da família. Só que apostou no cavalo errado, se bem que o meu tio adorasse a vida de estudante universitário. Ou melhor, adorava a vida de universitário, porque a vida de estudante, em boa verdade, nunca teve oportunidade de a conhecer.

Com a morte do meu pai em Dezembro de 1967, a minha mãe decidiu, ainda nesse ano lectivo, como voluntária, completar o 7.º ano do liceu (hoje, equivalente ao 12.º ano) e candidatar-se à universidade. E, também como voluntária, para espanto do meu avô, concluía, cinco anos depois, a licenciatura em Direito pela Universidade de Coimbra, com média de 16 valores, tendo sido convidada para assistente da Faculdade de Direito. No entanto, a revolução do 25 de Abril, com os saneamentos em massa dos professores e a abertura da magistratura às mulheres, fez com que a minha mãe optasse pela carreira de juiz, tendo vindo a tornar-se, no dia 20 de Maio de 2003, no culminar de uma carreira brilhante, de trabalho e devoção à causa, a primeira mulher juiz conselheira do Supremo Tribunal de Justiça.

Desde a morte do meu pai, em 1967, até se jubilar como juiz conselheira, em 2005, a vida da minha mãe foi dedicada a tempo inteira ao Direito e à magistratura. Até o seu gosto e o seu jeito pela pintura foi interrompido. Foi, por isso, com alguma surpresa que recebi a notícia de que a minha mãe tinha decidido, após jubilar-se, voltar a retomar as actividades a que se dedicara até ao falecimento do meu pai. Ou seja, o casamento e a pintura.

A minha mãe voltou, assim, a casar no dia 5 de Outubro de 2005, na capela do Solar Madre de Deus, em Angra do Heroísmo, com o Representante da República dos Açores que tinha sido seu colega e vice-Presidente no Supremo Tribunal de Justiça. E eu aproveitei a sua estadia nos Açores, durante o mandato do seu marido, para ir conhecendo as ilhas. No entanto, só fui a Ponta Delgada no último ano do mandato, em 2010, em virtude de já conhecer a ilha de S. Miguel.

Acontece que, se já conhecia a ilha, não conhecia o Paquito. E foi amor à primeira vista. O cão era um amor e muito mais bonito e querido do que a minha mãe o tinha pintado. Mas vê-lo preso, com uma corrente a uma casota no exterior, incomodou-me. António Rocha, um dos donos do cão e motorista do Representante da República, explicou-me que não havia alternativa, porque o portão tinha de estar aberto e, se o Paquito estivesse à solta, fugia.

No dia do meu regresso ao Continente, ao despedir-me do Paquito, ele, com lágrimas nos olhos, implorou-me para que o levasse comigo. Bem o tentei convencer, a ele e a mim, dessa impossibilidade. Mas, perante a sua comovente insistência, acabei por pedir a António Rocha, no trajecto para o aeroporto, que deixasse que o Paquito viesse viver comigo para Ponte de Sor, para que lhe pudesse dar uma vida como ele merecia. Um cão que é de todos acaba por não ser de ninguém. António Rocha garantiu-me que ia falar com Maria do Carmo, a funcionária que estava mais apegada ao cão, e que tinha a certeza de que ela iria aceder ao meu pedido. E assim foi. No dia 6 de Abril de 2011, desloquei-me ao aeroporto de Lisboa de Figo Maduro para ir buscar o Paquito que tinha acabado de fazer a sua primeira viagem de avião.

Quando chegou a minha casa e viu a Vitória, uma rafeira alentejana, o Paquito perdeu a cabeça, como acontecia antigamente com os alentejanos quando iam, pela primeira vez, a Lisboa. Acontece que a Vitória era areia demais para a camioneta do Paquito. Ele bem queria trepar pela perna acima, mas faltava-lhe sempre força de braços para tirar os pés do chão. No entanto, acabaram por ser amigos toda a vida, tendo sido o único cão, provavelmente por ser cadela, juntamente com a Kitty, de que o Paquito nunca teve ciúmes.

Em boa verdade, o Paquito não é um cão. É o filho que toda a gente gostava de ter. Os filhos, até irem para a escola, olham para os pais com uma devoção que nos enche de orgulho. Os pais são tudo para eles. Depois, a pouco e pouco, à medida que os anos vão passando, vão-se distanciando cada vez mais da casa paterna, onde só vêm para dormir e pedir dinheiro, até os próprios pais se tornarem num peso na sua vida. E, no tempo vertiginoso em que vivemos, os pais já não servem sequer para aconselhar os filhos. Podia dizer como Camões, “não me falta na vida honesto estudo com longa experiência misturado”. Mas o meu mundo já não é o mundo dos meus filhos e, muito menos, dos meus netos. Nem tão-pouco tem nada que lhes interesse ou que lhes seja útil. Como dizia o escritor catalão Noel Clarasó Serrat, “quando uma mãe ensina à filha o que é a vida, a filha aprende muito acerca da ignorância da mãe”.

Ora, o Paquito é precisamente aquele filho que nunca chegou à idade de ir para a escola. É a criança amorosa que adora os seus pais e não consegue conceber um mundo sem eles. Tudo o que eu digo, para o Paquito, é uma escritura. É o único dos meus filhos que, com o passar do tempo, continua a valorizar a minha companhia e os meus ensinamentos como se nunca tivesse deixado de ser criança.

Além disso, o Paquito é daquelas crianças que já nasceu ensinada. Sempre que precisa de ir à rua fazer as suas necessidades, pede, de forma educada, em voz baixa e por favor. Desde o primeiro dia que chegou a minha casa que sai à rua comigo sem necessidade de trela, porque nunca atravessa a estrada sem eu lhe dizer e pára quando eu lhe peço. E, quando eu chego a casa, por pouco tempo que esteja ausente, faz uma festa como se não me visse há anos ou eu tivesse chegado da China. Sem esquecer, a enorme confiança que sempre depositou em mim, seja para pentear, tomar banho, secar o cabelo, limpar os ouvidos, os olhos ou as feridas, lavar os dentes, cortar as unhas ou os pelos entre as almofadas das patas, tomar comprimidos ou vacinas. O Paquito é um cão que não incomoda nada. Não ladra e, praticamente, nem se dá por ele. Aliás, não ladrava, tendo em conta que a única coisa que me orgulho de lhe ter ensinado foi precisamente a ladrar. Não nos podemos esquecer que vivemos em Portugal. E, em Portugal, cão que não ladra não é gente.

Desde que aterrou em Ponte de Sor, a minha casa transformou-se na grande casota do Paquito, mas com mais divisões do que a que tinha nos Açores. Não há nenhuma divisão que lhe seja vedada e pode dormir onde quiser, excepto quando me vou deitar e ele está deitado na minha cama e no meu travesseiro. Nestas alturas, tenho de lhe pedir por favor para me ceder o lugar, porque eu, mesmo que quisesse, não conseguia dormir na cama dele.  

Com o tempo, o Paquito, à semelhança do que se passa comigo, passou a isolar-se mais, se bem que nunca tivesse gostado muito de agitação e rebuliço. E, quando os meus netos invadem a casa, ele refugia-se sempre num dos quartos da frente.

Para além de dormir, o seu único desporto é jogar às escondidas com o Tintim com biscoitos estrategicamente espalhados pela minha casa. O Paquito é, no entanto, um cão que necessita de muita atenção, quer pelo facto de ter pêlo comprido, quer por ter os olhos muito grandes. Ou seja, necessita de ser penteado e inspeccionado todos os dias, sendo muito sensível a alergias e propenso a inflamações e infecções. E como a idade começa a pesar-lhe, o coração, os pulmões e a coluna começam a dar sinal. Hoje, com 11 anos de idade, toma quase tantos comprimidos como eu pelo que os meus tempos livres são particamente dedicados a fazer de sua enfermeira.

Hoje o Paquito é a única pessoa que verdadeiramente precisa de mim. O Tintim é já um homem. Os meus filhos são mais velhos do que o meu pai quando morreu. E os meus netos ainda não chegaram àquela idade que atesta o provérbio chinês: “quando um homem descobre que o seu pai tinha razão, geralmente já tem um filho que acha que o seu pai está errado”.

Não consigo, no entanto, imaginar a minha vida sem o Paquito, mas o Paquito também sabe que, se eu partir primeiro do que ele, ninguém lhe vai dedicar a mesma atenção que eu lhe dou e que ele cada vez mais necessita. E tanto assim é que, no outro dia, quando estava com ele ao colo a limpar-lhe os olhos, ouvi o Paquito a sussurrar, em voz baixa, como se estivesse a rezar, o mesmo desejo que ouvi a Eugénio de Castro: “destina também, ó pai celeste, que a mão com que ele agora me limpa os olhos que seja a que há-de fecharmos algum dia”.

Santana-Maia Leonardo