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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

António Gomes Marques

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Nesta brochura que acompanha a Exposição bibliográfica sobre a vida e a obra de Arsénio Mota, há uma série de textos que analisam essa mesma obra e, para quem quiser aprofundar o seu estudo, há ainda o livro «Arsénio Mota – 50 anos de escrita» (1). Pela minha parte, vou limitar-me a contribuir com um pequeno testemunho que é resultante de 40 anos de convívio constante, apesar de residirmos a 300 km de distância.

Nas origens do Arsénio está um trisavô que terá participado na batalha do Buçaco, marco importante da luta contra as invasões napoleónicas, participação essa que lhe trouxe a alcunha de «Guerrilhas», alcunha que foi passando de geração em geração até chegar ao seu pai. Também será de assinalar, pelas influências que sobre o Arsénio foram exercidas, que a sua família, pelo lado materno e também pelo seu pai, foi sempre fiel ao ideário republicano, naturalmente democrático.

Não resisto à tentação de vos dar a conhecer um outro facto, tinha o Arsénio cinco anos, utilizando as palavras com que mo relatou: «Um carro, arrastadeira Citroën, parou um dia à porta da casa agrícola dos meus pais. Saíram quatro agentes da PVDE, interrogaram meu pai e ele entregou-lhes uma bandeira —da União Liberal de Bustos, velha associação republicana que já só servia para quotizar dinheiro para pagar enterros de sócios pobres. (Outros republicanos locais também foram «visitados», houvera denúncia.) Eu assisti à cena e recordo-a no essencial na história para crianças do livro «A Bandeira Escondida». Um editor do Porto recusou-se a publicá-la… um outro disse que sim.» Este editor foi a Campo das Letras e a edição data de 1998, com ilustrações de Fernando Lanhas.

Mais tarde, um tio e um primo do Arsénio foram presos e torturados pela PIDE, de tal modo que o seu tio, não resistindo, foi devolvido à sua residência para ali morrer. São factos que não deixaram de exercer influências no jovem Arsénio. Ele próprio viria a ser preso e torturado pela PIDE, o que o levou, após a sua libertação, tendo em conta o ambiente no seu local de trabalho, o Jornal de Notícias, onde exercia a função de jornalista, a deixar voluntariamente o emprego. Para além da sua posição anti-regime fascista, ousou ser editor de obras que o regime considerava perigosas, nomeadamente «Sobre a Religião», de Lenine, e «A Revolução Permanente», de Trotski. Voltaria ao JN após o 25 de Abril e, entretanto, foi ocupando o seu tempo a traduzir obras várias, fazendo revisões, não deixando de colaborar em jornais e revistas que lhe abriam as portas. Se calhar, a alcunha de «Guerrilhas» passou também para ele… ou deveria passar!

Mas relembremos outros factos.

Nas deslocações do Arsénio a Lisboa, a minha casa é o seu lar, ontem como hoje. Uma dessas deslocações foi motivada pelo 3.º Congresso de Escritores Portugueses, onde o Arsénio apresentou uma comunicação que versava a forma como o mercado estava a consumir a Literatura, uma preocupação que ele vinha manifestando em conversas anteriores. Recordo a preocupação do meu amigo perante a indiferença dos seus pares escritores em relação à sua comunicação, cuja temática lhe parecia, assim como a qualquer cidadão preocupado com o desenvolvimento do país, digna da maior atenção e, consequentemente, de uma discussão que levasse à tomada de medidas ou, por parte dos escritores, da elaboração de propostas claras reivindicativas junto das entidades competentes (2).

Três anos e alguns meses depois, recebo um novo livro do Arsénio, «Letras sob Protesto» (3), não resistindo a transcrever aqui a sua dedicatória:

«Ao

António Gomes Marques,

Desejando que compreenda e aplauda a luta pela melhor literatura…

Com o abraço da velha amizade

do

Arsénio Mota»

 

O conteúdo do livro não me surpreendeu —trata com profundidade do mercado editorial e dos «autores» na boca do mundo que «vendem» milhares de livros, da indústria cultural, dos livros para a infância e juventude, da crítica literária ou da falta dela, …—, o que me surpreendeu foi a ironia utilizada pelo Arsénio, o mesmo que, num fim-de-semana entre amigos, na casa de uma das minhas irmãs junto à praia de Santa Cruz, depois de, no pequeno quintal da moradia, nos ter dado uma lição de como pegar na enxada e cavar a terra, utilizou todos os argumentos contra o que eu e os outros íamos apresentando em defesa da ironia, argumentos esses que nem sequer deixaram de por ele ser rejeitados mesmo com a nossa invocação da ironia queirosiana. O Arsénio, largos anos depois acabou por aderir aos nossos argumentos, demonstrando na prática a sua valia. Neste livro, gostei também do Posfácio de José Luís Pires Laranjeira, o qual me faz agora relembrar um outro facto que mostra, na minha opinião, a razão apresentada pelo Arsénio nesta sua obra, facto esse que se prende com uma entrevista em que José Saramago, aquando do lançamento de «A Caverna», fazia uma referência à «caverna de Platão», que o filósofo descreve no seu «República». Lida a entrevista, fui a correr comprar o livro, partindo para a sua leitura imediata à procura da «caverna de Platão», o que, até hoje, não consegui encontrar no livro. É preciso saber vender o que se escreve e, nisso, José Saramago e a sua equipa foram do melhor a que pudemos assistir. Aqui, como não podia deixar de ser, devo acrescentar que considero o Nobel português um grande escritor, em particular pelas duas obras-primas que escreveu: «Levantado do Chão» e «Memorial do Convento».

Voltando ao escritor Arsénio Mota, esta sua obra é digna de um verdadeiro «Guerrilhas», de alguém que, perante todas as adversidades, não vira a cara à luta.

Passados mais uns anos, precisamente no dia 21 de Julho de 2013, estava eu, como agora, numa das cidades da minha paixão, Lagos, a minha atenção foi despertada por um artigo na Revista do Público desse dia, «Pagar para Publicar», que me trouxe à memória as muitas conversas que, ao longo de quase quatro décadas, venho mantendo com o Arsénio Mota, assim como para os dois livros do meu amigo que acabo de referir. Fala o artigo, da autoria de Catarina Fernandes Martins, de «editoras que se dedicam a publicar autores desconhecidos a um ritmo industrial». Os autores avançam com 500 euros e têm a garantia de ver a sua obra publicada, assim como, se da edição se vender um determinado número de exemplares, o autor nada fica a dever ao editor e poderá mesmo reaver o gasto que teve se conseguir vender, ele próprio, os exemplares com que ficou.

O artigo desenvolve esta nova forma de fazer negócio com a edição de livros onde a qualidade da obra não conta para nada, o que interessa é que o autor pague. Ou seja, o problema de que o Arsénio se vinha ocupando, «a extinção da Literatura», tem-se agravado.

Entretanto, a Campo das Letras, a editora que publicou a maioria dos livros de Arsénio Mota, foi derrotada pelo mercado, com um catálogo que orgulha qualquer editor, mas tratava-se de um editor que não tinha acesso, nomeadamente, à propaganda televisiva, impossibilitada portanto de fabricar «os grandes escritores» que preenchem o mercado dos livros e, nos intervalos, ir publicando os escritores dignos desse nome, método que outros editores vão utilizando.

O Arsénio é alguém sempre atento às evoluções científicas e tecnológicas e, como não poderia deixar de ser, aderiu de imediato às novas tecnologias. Recordo algumas das conversas sobre a vantagem dos computadores pessoais, que invadiram as nossas vidas e deles nos tornando dependentes, dos avanços técnicos contínuos daquelas máquinas, do seu envelhecimento rápido, feitos para durar pouco tempo e nos levar a comprar os novos modelos, etc. Para além disto, o Arsénio falava também com grande à-vontade da nova ferramenta, demonstrando mais uma vez a seriedade que ele põe nas coisas da vida. Atrás dos computadores pessoais veio a «internet», logo de seguida os blogues, não deixando o Arsénio de criar o seu, no qual tem vindo a reafirmar a alta qualidade da escrita a que sempre nos habituou, seguindo o caminho trilhado numa das obras que lhe é mais querida: «Som de Origem: Arte d’escrita» (4), demonstrando o nosso autor ser digno sucessor do cognome que foi conquistado pelos seus progenitores, «Guerrilhas».

Reformado do jornal e com o computador à frente, para quê procurar um outro editor ou sujeitar-se às regras comerciais desrespeitadoras dos valores em que sempre se acreditou e pelos quais sempre se lutou? Por que razão não aproveitar as possibilidades tecnológicas à disposição de todos? Se ao blogue acediam cada vez mais leitores, por que não tentar a divulgação electrónica de algumas das suas obras já esgotadas e até de algumas inéditas? Ora só a prática pode dar resposta às dúvidas, dúvidas que logo se foram eliminando com a publicação dos primeiros «e-books» e com a agradável surpresa que o próprio Arsénio me manifestou de os leitores terem vindo a crescer de forma surpreendente, estando eu convicto de que só procuram os «e-books» os reais leitores, aqueles que compram livros para ler e que, agora, só graças a esta divulgação electrónica conseguem completar a sua necessidade de boa literatura.

Pires Laranjeira termina o citado Posfácio com a expressão «Escreve mais, pá, sempre!» e, de facto, desistir de escrever não é parte da forma de estar neste Mundo do Arsénio Mota, como a sua opção pelos «e-books» não é sinal de desistência da publicação em livro do que se vai escrevendo. Arsénio Mota não deixou de acreditar na indispensabilidade do livro como formador insubstituível dos povos, da formação dos homens que hão-de ir construindo um Mundo melhor, um Mundo solidário, justo, democrático, onde a igualdade de oportunidades esteja ao alcance de todos. Foi para que este Mundo seja possível que o Arsénio Mota escreveu e continua a escrever, não deixando de utilizar os meios que tem à sua disposição.

Lagos, 2014-07-25

Notas:

1 – Arsénio Mota – 50 anos de escrita, Coordenação de Serafim Ferreira, Campo das Letras – Editores, S. A., Porto, Setembro de 2005;

2 – V. «Manifesto e clamor contra a extinção da Literatura», in Arsénio Mota, Inclinações Pontuais, Campo das Letras – Editores, S. A., Porto, Março de 2000;

3 – Arsénio Mota, Letras sob Protesto, Campo das Letras – Editores, S. A., Porto, Outubro de 2003;

4 – Edição de Livros Horizonte, Lisboa, 1985.

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