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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

João Carlos Espada - Público de 8-12-2014

Tenho por isso uma enorme dívida de gratidão pessoal para com Mário Soares, tal como para com Maria Barroso, sua mulher, o que evidentemente não me recomenda como “espectador imparcial”. Mas esta minha enorme dívida, especificamente pessoal, é ainda assim muito ínfima — quando comparada com a gigantesca dívida que eu e todos os portugueses que amam a liberdade devem a Mário Soares e a Maria Barroso.

Esta dívida de gratidão tem recentemente sido questionada por várias propostas revisionistas da história da democracia portuguesa. Não tenho aqui espaço para as discutir.  Mas o semanário Expresso proporcionou-nos, na penúltima edição, o melhor lembrete sobre a dívida que temos para com o casal Soares. Refiro-me à célebre entrevista da jornalista italiana Oriana Fallaci com Álvaro Cunhal, de 6 de Junho de 1975, agora republicada na íntegra na série Grandes Entrevistas (Vol. 5, 30 de Novembro de 2014, pp. 52-74). (...)

Convém agora recordar o que Álvaro Cunhal disse sobre a democracia:

“(O que eu entendo por democracia não é) certamente o que vocês, os pluralistas, entendem. Para mim, democracia significa liquidar o capitalismo e os monopólios. E ainda lhe digo mais: Portugal já não tem qualquer hipótese de estabelecer uma democracia ao estilo das que vocês têm na Europa ocidental (p.61). Garanto-lhe que em Portugal não haverá um parlamento (p.59). Não queremos uma democracia como a vossa (p. 62). Portugal não será um país com as liberdades democráticas e os monopólios. Não será companheiro de viagem das vossas democracias burguesas. Porque não o permitiremos. Talvez voltemos a ter um Portugal fascista (ainda que eu não acredite nisso). Mas seguramente que não teremos um Portugal social-democrata. Jamais.” (pp. 73-4). (...)

E Álvaro Cunhal não deixou dúvidas sobre quem considerava o obstáculo principal na sua caminhada para a ditadura comunista: Mário Soares. (...)

Não creio que a dívida de gratidão dos portugueses para com Mário Soares tenha sido diminuída pelas opiniões políticas peculiares por ele ulteriormente sustentadas. Mário Soares ensinou-nos que não há donos da democracia, nem alguém acima das leis. Isso continua a ser verdade hoje, tal como em 1975.