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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Helena Matos - Observador de 15-3-2015

Tenho saudades do tempo em que chamar filho da puta a um filho da puta era mesmo só dizer o que pensávamos daquele filho da puta e ofendê-lo na medida do verbalmente possível sem cairmos numa polémica sobre os nossos preconceitos acerca do comportamento sexual que esperamos das nossas mães e das mães dos outros e das outras (manda agora o bom senso dizer tudo em dobro ou quiçá em dobra e dobro). Desse tempo em que o simples pronunciar da palavra mãe não nos levava a ser interpelados sobre as “representações eivadas de uma concepção patriarcal” que subsistem nos recônditos do nosso pensamento, recônditos esses em que existem papéis de pai e papéis de mãe diferenciados, que é o mesmo que dizer estereotipados.

Hoje, independentemente do filho da puta continuar a comportar-se como um filho da puta, há que ponderar que as putas são trabalhadoras sexuais, que ao referirmos a mãe de alguém, seja ela trabalhadora sexual ou não, temos de considerar se estamos a falar da mãe biológica ou não biológica ou da mãe companheira da outra mãe e que, para evitar mais quezílias, o melhor será desistir de falar de filhos ou de filhas pois automaticamente incluímos o ser objecto da nossa ira num género (uma sociedade que trocou o sexo pelo género não está de facto boa da moleirinha!) ao qual não sabemos se ele quer pertencer. No fim o nosso filho da puta passará a “pessoa com relação de parentalidade com trabalhadora sexual” mas nós ficamos com a alma livre de escarmento. Para quem tiver dúvidas na matéria aconselho a consulta do Guia para uma Linguagem Promotora da Igualdade entre Mulheres e Homens na Administração Pública, dado à estampa em 2009, e que entre muitas assombrosas coisas manda que se diga “a gerência” em vez de “o gerente” ou “a direcção” em vez de “o director”. (...)

Na verdade nestas matéria já nada me espanta desde que, meados do ano passado, descobri que os programas e secções de jardinagem muito populares em países como a Inglaterra e a França andavam a ser criticados pela sua terminologia racista e discriminatória – é o problema da mosca negra, das espécies invasoras, as pragas de plantas exóticas… A obsessão com o racismo tem levado a paradoxos tais que no futuro terão de fazer glossários para que se perceba o vocabulário que criámos nesta matéria: assim, depois da igualdade entre as raças passou-se para as etnias, mais as comunidades e agora andamos nos afro isto e aquilo versus os europeus. Resultado: um negro que viva em Portugal há várias gerações ou que nunca tenha posto os pés em África é designado como africano, ao passo que um branco, mesmo que tenha nascido em África e descenda de uma família radicada naquele continente há mais de um século nunca deixa de ser europeu. (Essa foi aliás a lógica que não só levou a que se chamassem retornados aos portugueses que fugiram de África de 1974 a 1976 mas também a que, contra todas as evidências, políticos e jornalistas tenham apresentado essa fuga como um comportamento exclusivo dos brancos). (...)

Podia fazer quase uma edição completa do Observador com exemplos dos absurdos a que o politicamente correcto nos conduziu. (...)

Como exclamam alguns venezuelanos emigrados em Espanha quando recordam o seu país antes da revolução bolivariana “Esse era o tempo em que nós éramos felizes e não sabíamos”. Também a mim me apetece dizer que tenho saudades do tempo em que acreditámos – pelo menos eu acreditei – que combater aquilo com que não concordávamos era apenas isso: combater aquilo com que não concordávamos e não criarmos as metástases do Comité de Saúde Pública, de Rousseau. Esse era o tempo em que éramos livres e não sabíamos. E eu tenho saudades dele.